Que o céu nos proteja dos otimistas - Le Monde Diplomatique

Crise de valores

Que o céu nos proteja dos otimistas

por Mona Chollet
9 de setembro de 2009
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Vivemos um momento único da história da humanidade. Uns o definem como “o encontro da espécie com os limites da biosfera”. Outros como “a mais profunda crise jamais enfrentada”. Assim, o que deve ser revisto é todo nosso modo de pensar e a representação que fazemos da espécie humana, de sua vocação e seu lugar no mundo

Verão de 2006. Como a cada manhã, Laurence Shorter, jovem consultor inglês desempregado, ouve o rugido que vem de fora, dos motores das Mercedes e das BMW que levam seus vizinhos para o trabalho, enquanto ele não é capaz de sair da cama. “O que há de errado comigo?” se pergunta, em desespero. Em seguida liga o rádio e, de repente, entende. O que o corrói é a ladainha de catástrofes repassadas permanentemente pela mídia: guerras, epidemias, crise ecológica… E decide, então, assumir uma missão: fazer os profetas da infelicidade engolir as próprias palavras, reabilitar o otimismo e espalhá-lo pela superfície do planeta. Está decidido: vai se vingar dos pessimistas, esses “cínicos” que “sempre leram mais livros” que ele – o que não é difícil – e que, nos jantares, têm prazer evidente em humilhá-lo, “em geral na frente de belas mulheres”. E ainda vai, ao mesmo tempo, cumprir o destino grandioso para o qual ele não tem a menor dúvida de ter nascido: “Se eu conseguir, as portas de Davos, da Clinton Foundation e de muitos outros locais fabulosos estarão abertas para mim”.

É fácil identificar as razões da profunda ansiedade de Shorter: ele se dá conta que sua fé nas capacidades conjugadas do neoliberalismo e da tecnociência, de guiar a humanidade rumo a um futuro radiante, está seriamente abalada, mas quer a todo custo continuar acreditando. Os problemas o deprimem. Ele só se interessa pelas soluções, “de preferência as que promovam a difusão planetária de cadeias de cafés, de supermercados ecologicamente corretos e de empresas de informática oferecendo atualizações de softwares gratuitas”. O que ele espera é que lhe digam que tudo está sob controle, e que “nós estamos vivendo a época mais próspera e mais formidável da história da humanidade”. Assim, ele pede a todos com quem cruza que o ponham em contato com os otimistas que conheçam. Às vezes, acontece de algum engraçadinho fazer uma indicação falsa. Ele logo sente a testa escorrendo de suor: “Me dou conta que tinha me aventurado no covil de um pessimista raivoso, eventualmente um marxista”.

Busca incansável

Shorter tenta contatar Bjorn Lomborg, o professor dinamarquês que nega o aquecimento global: infelizmente, ele não responde aos seus e-mails. Logo em seguida vai ao encontro de um pesquisador inglês que alega conseguir interromper o envelhecimento e tornar a humanidade imortal; do budista francês Matthieu Ricard; de um rabino californiano adepto do surfe; e ainda da diretora do conselho de administração do Google. Viaja para o terceiro mundo: “Os militantes antiglobalização adoram denunciar a poluição, a existência de focos de miséria e o impacto sobre o meio ambiente, sem se dar conta do número de indianos que dali em diante pode comprar óculos Ray-Ban”. Não demora a se convencer que Bangalore, na Índia, se parecerá em tudo à atual São Francisco: “Enquanto isso, não quero voltar a pôr meus pés ali”.

Como não pode desprezar nenhuma pista e superando a angústia de ser “confundido com um hippie”, Shorter explora o nicho “desenvolvimento pessoal” das livrarias, com o objetivo de começar a entender o campo da autoajuda. É assim que descobre a arte de “fazer um pedido ao universo”, a fim de que todos os seus desejos se realizem, ou de concluir parcerias do tipo “uma mão lava a outra” com Deus. Tudo isso lhe descortina horizontes vertiginosos: “Pense na República Democrática do Congo! Poderíamos fazê-los visualizar a paz e a abundância”. Em pouco tempo, ele põe em funcionamento seu próprio método de “interrupção de um processo de pensamento negativo”: “Levante-se e dê um soco na mesa, gritando ‘STOP!’. Essa é uma técnica simples, mas extremamente eficaz”.

Contudo, entre todas as suas ações, uma falou mais alto: Shorter deveria se trancar num quarto com Bertrand Méheust, filósofo ecologista que faz parte de um grupo de autores praticantes do “catastrofismo esclarecido”1. De todos os representantes dessa vertente, Méheust é o mais pessimista: ele teme que o mercado seja “completamente incapaz de controlar o que desencadeou” e as sociedades liberais não sejam a exceção à regra que diz “que um mundo mental sempre tenta perseverar em seu modo de ser”, quaisquer que sejam as sucessivas astúcias que precise desenvolver para tanto. Dito de outra forma, a inércia do sistema “ainda impedirá por muito tempo o ‘Supertitanic’ de mudar sua orientação de modo palpável”, e o mais provável é que não consigamos desviar do iceberg. O que não deve nos desanimar, mas ao contrário, nos motivar ainda mais a nos mostrar à altura das circunstâncias.

Pois mesmo que cada um deles tenha seu modo de atacar o problema, propondo assim um apaixonante mosaico de pontos de vista, todos esses ensaístas constatam a mesma coisa: estamos vivendo um momento único da história da humanidade. Momento que o jornalista Hervé Kempf define como “o encontro da espécie com os limites da biosfera”. Na mesma linha, a filósofa da ciência, Isabelle Stengers, recorrendo deliberadamente a uma imagem provocadora, fala do “aparecimento de Gaia”2. Face ao que Méheust qualifica de “a mais profunda crise jamais enfrentada pela humanidade”, não poderíamos nos contentar com soluções técnicas. O que deve ser revisado é todo nosso modo de pensar, além da representação que fazemos da espécie humana, de sua vocação e de seu lugar no mundo. Jean-Pierre Dupuy, autor de Petite métaphysique des tsunamis (Pequena metafísica dos tsunamis), compara a humanidade contemporânea a uma pessoa que começa a fazer psicanálise, e que, por mais crítica que possa ser sua situação, precisa evitar tomar qualquer decisão precipitada: “Seria bom que, ao se dar conta da extensão do desastre, a humanidade proporcionasse a si mesma os meios de fazer uma pausa para contemplar o prodígio que está vivendo: ela acede à consciência de si, no momento mesmo em que sua sobrevivência está em jogo”.

É preciso reconhecer: nós estamos pouco municiados para fazer essa necessária revolução do pensamento. Em seu Pour sauver la planète, sortez du capitalisme (Para salvar o planeta, saiam do capitalismo), Kempf chama a atenção para a dificuldade da nova geração “reinventar formas de solidariedade, quando o condicionamento social repete incessantemente em seus ouvidos que o indivíduo é tudo”. Ele nota que o discurso da ecologia de mercado é sempre dirigido a indivíduos: nele, fala-se dos “bons gestos” que cada um deve supostamente cumprir em favor de “seu” planeta, em “sua” casa. “Onde estão as proposições ativas que tornam possível e desejável agir de outra forma, ou seja, agir em primeiro lugar em conjunto, mas sobretudo com os outros?” interroga também Stengers. “Onde estão as escolhas concretas e negociadas coletivamente? Onde estão os textos que povoam nossa mente, compartilhando sucessos e aprendizados? Onde estão, na escola, os modos de trabalho conjunto que despertariam o gosto por cooperações e a experiência da força de um coletivo que trabalha para que sejamos bem-sucedidos todos juntos, contra a avaliação que separa e julga? É preciso lembrar de tudo isso, ou seja, da maneira como somos formados, ativados, capturados, esvaziados.”

As análises feitas por cada autor para estabelecer as bases desse novo pensamento, que eles dizem almejar, são em geral agudas e pertinentes. Mas é François Flahault, autor de Le crépuscule de Prométhée (O crepúsculo de Prometeu), que apesar de não se referir explicitamente ao catastrofismo, vai além na exploração e questionamento das certezas que herdamos. Em uma espécie de  “caça ao tesouro” intelectual, ele segue os passos da evolução e a persistência mais ou menos subterrânea do mito de Prometeu ao longo dos séculos de cultura ocidental. Ele mostra como o prometeísmo moderno, essa loucura baseada na confiança de dominar a Natureza – o que Dupuy chama, por sua vez, de “humanismo orgulhoso” –, alimentou e impregnou as artes, as ciências, as técnicas e as ideologias – todas as ideologias – de forma perturbadora: “Orientações políticas diametralmente opostas, como o marxismo-leninismo e o laissez-faire pregado pela direita americana, pelo nazismo e pela democracia liberal, que nem por isso deixam de compartilhar uma mesma inspiração prometeica”. A onipresença desse alicerce cultural tem como consequência torná-lo invisível, quando é justamente ele que nos pode pôr a perder.

Essa é uma visão bastante perturbadora: no mais das vezes, nos esforçamos para estabelecer um cordão sanitário entre o nazismo e a modernidade, a fim de recusar o primeiro, como uma estranheza absoluta, e preservar a segunda de qualquer culpa. Isso é em especial o que faz Luc Ferry, quando explica o nazismo como um eclipse da modernidade, uma volta a valores nostálgicos e arcaizantes. Isso permite que ele aproxime ecologia e nazismo, que atestariam uma mesma preocupação com a Natureza. Méheust aponta para a falsidade dessa argumentação: o nazismo, ele insiste, foi efetivamente “uma barbárie moderna, uma forma exacerbada e louca da modernidade”, e sua celebração da Natureza, secundária, não teria outra função a não ser servir de contraponto, de compensação imaginária. Reiterando que, para Ferry, a palavra-chave da modernidade é “desenraizamento”, ele aproveita a brecha: é justamente por sua “fantasia do desenraizamento e da ruptura”, por sua “vontade de remodelar o mundo pela força” – manifestações de prometeísmo, no caso –, que o nazismo “antecipa com maior clareza nossa modernidade”. Atribuir os desastres do século XX unicamente ao totalitarismo, enfatiza Flahault, é esquecer “que a expansão colonial e a Primeira Guerra Mundial não são imputáveis a regimes totalitários”.

As coisas se tornam ainda mais críticas quando consideramos que o prometeísmo não constitui um fenômeno que possamos isolar com facilidade: ele interpenetra “os valores do quais temos mais orgulho: o ideal de liberdade e de progresso, o movimento de emancipação do indivíduo, a modernidade que nos parece legítima de propor ou impor às outras culturas”. Toda a questão é, portanto, conseguir elaborar uma concepção “não prometeica” do progresso.

Como encontrar a boa maneira de intervir na ordem natural? Como preservar a autonomia conquistada pelo indivíduo no Ocidente, sem por isso transformar este último em uma cidadela, isolando-o de seus semelhantes? Questões como essas deveriam estar no centro de nossas preocupações durante os próximos anos.

Ao longo das páginas, Flahault desfia as características do prometeísmo: a convicção de que o ser humano tem a capacidade de rivalizar com os deuses – e com Deus – e de medir força com eles, ocupando uma posição relativamente superior à Natureza. Seu papel nela é a de um colonizador, e tem a vocação de dominá-la, explorá-la e transformá-la. Trata-se de uma certeza tão arraigada que, sem dúvida, explica por que não podemos deixar de ficar ligeiramente envergonhados quando Méheust enuncia a razão pela qual a tecnociência será sempre incapaz de consertar os estragos que ela mesma causou, sem excluir a hipótese de ela continuar em uma desastrosa caminhada na direção do abismo: porque “a biosfera é mais complexa que a inteligência que gerou”.

Visão aberrante

No imaginário ocidental, o ser humano começa por moldar e dominar seu meio ambiente material. Em seguida, ao se dar conta do lucro que poderia auferir disso, decide se unir a outros indivíduos, para “se associar a eles”. Ele tem tendência a conceber as relações sociais pelo mesmo modo instrumental da sua relação com as coisas, acreditando, por exemplo, poder fazer tábula rasa do que existe, para remodelar tudo à vontade da sociedade, obedecendo a um esquema ideal.

Ora, como observa um número sempre maior de autores,3 essa é uma visão aberrante: ninguém pode se constituir como pessoa, como indivíduo, fora de qualquer relação com as outras pessoas. É, sem dúvida, na escritora Ayn Rand, autora-símbolo da direita americana e encarnação de um individualismo levado às raias do integrismo,4 que o erro é mais flagrante. Para ela, o individualismo se justifica pelo fato de “oespírito ser um atributo individual. Não existe nada semelhante a um cérebro coletivo”5. Essa, objeta Flahault, é uma falsa evidência: o cérebro, ao contrário, é um “órgão social” que “funciona em rede”. Para desenvolver uma atividade singular, ele precisa ser estimulado o máximo possível por outros cérebros. Afinal, nós sempre pensamos dentro de um ecossistema social e cultural, e a partir do “que os mortos transmitiram aos vivos”.

“Os seres que vivem em função dos outros deixam de ter realidade, pois sua realidade deixa de estar neles mesmos”6, afirma Rand, quando a verdade é exatamente o contrário disso: para se desenvolver como indivíduo e adquirir o sentimento de sua própria existência, uma criança precisa interagir com quem a cerca, a começar pelos pais. O paradoxo da condição humana, resume Flahault, é que “o em si mesmo vem de outro que não ele mesmo” e “a independência nasce da dependência”. Se os romances de Rand fazem tanto sucesso nos Estados Unidos, é porque é envaidecedor se identificar com um herói incompreendido pela massa de medíocres, desafiando a sociedade e pretendendo tirar sua força vital unicamente de si mesmo. Deixemos nosso medo de lado e mergulhemos agora no livro escrito por Laurence Shorter. Eis que uma luz se acende: o que no início parecia um amontoado de inépcias revela-se, subitamente, de uma profunda coerência. O que Shorter tenta reabilitar, sob o nome de “otimismo”, é na verdade o prometeísmo. Como leitor de Jules Verne, ele quer que lhe falemos “de forças irresistíveis e de glorioso destino”. Expressando seu desprezo pelos “ecochatos”, clamando admiração “pelos visionários, dirigentes de empresas e líderes mundiais”, ele valoriza constantemente uma atitude viril e conquistadora.

Resposta patética

Atestando essa “megalomania pueril” que, segundo Flahault, o prometeísmo incentiva em nós, ele se considera “nascido para reinar, não para choramingar”. Condena o pessimismo como uma “resposta fraca e patética aos acontecimentos mundiais”. E só podemos protestar, ao constatar que o autor colocou na lista dos grandes otimistas, capazes de nos fazer confiar novamente no futuro da humanidade, o diplomata americano John Bolton, “um dos arquitetos da guerra no Iraque”. Ele o apresenta como “um homem determinado a impor a visão e a autoridade dos Estados Unidos a um planeta indeciso e pusilânime”, no qual a invasão do Iraque constitui, segundo Flahault, um dos exemplos recentes mais flagrantes da tábula rasa prometeica.

Quanto a Kempf, ele também tem proposições interessantes. “Não recuando diante de nenhum obstáculo”, numa noite de 2007 ele vai ao lançamento de um fundo de investimento dedicado aos “valores do meio ambiente”, criado pela Companhia Financeira Edmond de Rothschild. Título do debate: “O meio ambiente como motor do crescimento”. Participantes: Jean-Marc Sylvestre, Luc Ferry7 e Claude Allègre. “Nosso país precisa de uma cultura do risco”, afirma este último. Já Ferry denuncia as “paixões tristes” inspiradas pela ecologia, que ele recrimina por alimentarem “a paixão pelo medo”. Ora, observa ele, “quando éramos pequenos nos diziam que ter medo era uma vergonha. Um menino crescido não tinha medo. Crescer significava vencer os medos”. Visivelmente, Ferry não está pronto para submeter as convicções de sua infância ao mesmo exame crítico de Flahault.

 

*Mona Cholllet é autora de Rêves de droite (Sonhos de direita), Paris, editora Zones, 2008.



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