A ARTE DO ZAJAL
Um dos mais qualificados renovadores da arte poética árabe por meio do gênero popular denominado Zajal, o bardo cordovês Ibn-Quzman (c. 1087/1160) é o principal nome estudado neste trabalho de Michel Sleiman. A produção zajalesca dos árabes em Alandalus foi e é objeto de intensa disputa acadêmica devido ao uso de expressões dialetais românicas e à pintura de situações cotidianas, o que a levou a ser lida como “realista”, entre outras sandices. Bem ao contrário, o autor demonstra que se trata de trama retórica e bem articulada.
Delineando um equilibrado balanço da polêmica questão, que gerou disputas e inimizades insuperáveis, Sleiman lança mão dos antigos preceptores de poesia árabe em uma vasta gama de obras que cobrem cerca de três séculos, para situar a produção de Ibn-Quzman no contexto da produção poética árabe da época. Em seguida, com o auxílio de obras históricas, traça-lhe as condições de possibilidade e as redes de significância em que se inseria. A construção de sentido na poesia quzmanesca deriva, segundo Sleiman, de duas coisas, complementares entre si: da contestação que o poeta fazia da qasida, gênero clássico por excelência da poesia árabe, e da concepção, nova para a época, que deslocava o nível da elocução do baixo para o alto. Ou seja, embora o gênero do Zajal, conforme a preceptiva, fosse destinado aos domínios do baixo, Ibn Quzman lhe opera uma inversão na medida em que o propõe como uma espécie de alto no baixo, com todas as implicações para um gênero essencialmente cômico.
Parte fundamental no trabalho são as traduções apresentadas pelo autor, cuja leitura, além de deixar mais evidentes as suas proposições, consegue ombrear-se, na qualidade e no deleite proporcionado, à estupenda dicção quzmaniana. Evidenciando que os quase nove séculos que a separam de nós não se constituem em obstáculo, e que uma das obrigações de qualquer tradutor de textos antigos é esta: fazê-los falar à sensibilidade de seus contemporâneos.


