A escuta Singular de Pixinguinha: História e música popular no Brasil dos anos 1920 e 1930

Como identificar e explicar as diversas coordenadas que se entrelaçam em uma experiência periférica de modernidade, no limiar do século XX? Como descrever a dinâmica dos elementos urbanos e agrários em nossa formação socioespacial, sopesando-os no imaginário sonoro dessa época? A pesquisa que Virgínia Bessa realiza sobre a escuta singular de Pixinguinha ocupa-se com rara argúcia desses e de outros motes (inclusive o eterno debate sobre a identidade nacional, um fantasma a espreitar a intelligentsia tupi), valendo-se das luzes projetadas sobre o eclético compositor para provocar-nos uma fecunda reflexão acerca da produção cultural que surge nos anos 20/30 e o sinuoso processo de modernização.

A autora parte da hipótese de que Pixinguinha, a exemplo de outros bambas de seu tempo, mesclou em sua obra múltiplas fontes (as novas sonoridades da urbe em expansão, a música popular estrangeira difundida em discos e partituras, os ritmos africanos dos rituais religiosos), participando, ao mesmo tempo, da criação de uma nova tradição musical brasileira. Essa escuta seria, afinal, uma “estratégia de sobrevivência” e de “inserção social”, abrindo-lhe caminhos na incipiente cena profissional e avalizando a presença dos artistas populares nas discussões sobre a cultura brasileira.

Além de navegar entre o erudito e o popular, o “anticancioneiro” Pixinguinha ajudaria a sistematizar o idioma do choro, capaz de fundir a ‘música para ouvir’ e a ‘música para dançar’.

 Se Noel deambulara entre o morro e o asfalto para anunciar a nova feição urbana da nossa música, eivada de ritmos agrários até a era do rádio, a trajetória de Pixinguinha revisita o telúrico e o cosmopolita, indiciando no singular capitalismo tropical o ingresso dos negros recém-libertos na indústria do espetáculo e sua própria integração à sociedade de classes. Lido com os ouvidos, o texto converte o passado ‘harmonioso’ em uma história ruidosa e dissonante – e a figura versátil e plural do Batuta revela-se, afinal, uma síntese única da dialética da malandragem em Bruzundanga