A ética budista e o espírito econômico do Japão

Pode-se dizer que a primeira reação de uma mente ocidental no caso de qualquer menção ao budismo remete a denso espiritualismo, a vida monástica, a intensa crença religiosa. Por isso, o livro de autoria de Ricardo Mário Gonçalves – budista, historiador e professor universitário – chama a atenção já no próprio título, quando informa que o estudo que apresenta está voltado para o papel exercido pela ética budista na formação econômica do Japão.
Concentrado na vida e obra de Suzuki Shôsan, nascido em 1579 no Japão, o texto pesquisa o papel do budismo no desenvolvimento da economia japonesa a partir do século XVII. Ressalta a postura desse homem que viria a se tornar um devoto, mas que, naquele momento histórico, elaborou idéias racionalizantes no âmbito da ética econômica. Um monge que tratou o trabalho como atividade ao mesmo tempo sagrada e ascética, e para quem era “um erro pensar que precisamos de horas livres para pensar na Vida Eterna”.
Shôsan chegou a ser samurai e assumiu um feudo até dedicar-se integralmente ao monasticismo, motivado de início pelo teatro Nô, aos 41 anos de idade. Não deixou de ser líder e foi a partir de então que sua importância cresceu no universo nipônico budista. Influenciado por várias das correntes – ele mesmo vinculado ao budismo zen – lutou por uma vida religiosa produtiva e criadora de riquezas. Com sua postura, Suzuki Shôsan favoreceu o dinamismo econômico ao valorizar o papel social do lucro e seu reinvestimento em novos empreendimentos.
O livro contribui para o conhecimento das conseqüências práticas da ética de Shôsan, ética equivalente à dos pensadores protestantes em cuja obra Max Weber viu um dos fatores estimuladores do capitalismo no Ocidente. Sua grande qualidade é nos colocar em contato com um budismo mais amplo e profundo do que indica o modelo em que foi transformado por abordagens limitadas.
A pesquisa de Ricardo Mário Gonçalves ilumina o que teria sido o Japão pré-industrial e, principalmente, enriquece os instrumentos para a compreensão do milagre econômico japonês consolidado no século XX.