A falência da política
Auditório Maurício Tragtemberg. Uma placa anuncia, na sede da Adunicamp, sindicato dos professores da Unicamp, que aquele espaço, próprio para a construção democrática das posições defendidas pela entidade, homenageia Maurício.
Muitos dos jovens que entram na vida universitária talvez não conheçam quem foi Maurício. Intelectual respeitado até mesmo pelos que se opunham a ele, Maurício, se não tivesse existido, precisaria ser inventado. Muitas gerações intelectuais passaram por ele, receberam sua marca. Sempre disposto ao confronto das ideias, desprovido de sectarismo e portador de uma imensa ironia, generosa, atenta, Maurício sempre recusou um tipo de academicismo pedante. Criticou aqueles que viviam do “capital de relações sociais”, como sempre afirmou. Conviver com ele sempre foi um privilégio; conversar, um aprendizado permanente.
Viveu um tempo privilegiado, ainda que brutal: da ditadura a essa coisa pastosa que se convencionou chamar de redemocratização. Usou dos espaços jornalísticos que tinha a seu alcance para cedê-los àqueles que não tinham como falar dos seus projetos. Intervenções que iam da análise do pensamento weberiano ao acompanhamento constante da democracia dos trabalhadores, por exemplo, nas Comissões de Fábrica. Acompanhou de perto as experiências da CUT e do PT, que receberam dele críticas que só muito mais tarde se tornaram, relativamente, senso comum.
Maurício sempre foi um intelectual atormentado, no melhor sentido das duas palavras. Nunca silenciava diante do despotismo, seja dos governantes, seja dos burocratas universitários. Produziu uma obra multifacética abordando Marx, Weber, Rosa Luxemburgo, Bakunin. Escreveu sobre educação, em especial sobre pedagogia libertária, conhecimento expropriado e reapropriado pela classe operária.
A Unesp, ao publicar este conjunto de artigos, permite o acesso a um pensamento sempre inquieto, crítico da burocracia e aberto à “invenção da política”. Faria apenas uma ressalva: os artigos deveriam ser publicados na ordem em que foram produzidos, não por submissão ao cronos, mas para que se possa compreender como foi sendo produzido e autocriticado, como um testemunho de sua intervenção no kairos.


