A FORÇA DO TESTEMUNHO – CARTAS DA PRISÃO
Dentro de um ano o Brasil celebrará 30 anos da Lei da Anistia de 1979. Intelectuais provocam o debate sobre o tema da tortura, estudantes discutem nas universidades, juristas se manifestam sobre a imprescritibilidade dos crimes de lesa-humanidade, magistrados e ministros assumem posições púbicas contraditórias a partir da trajetória de cada um. Um processo inconcluso e revelador em que se debate a sociedade brasileira, quase 30 anos depois, ainda às voltas com os fantasmas dos anos de chumbo.
Neste livro, oportunamente reeditado, Frei Betto introduz na discussão o valor do testemunho. Numa linguagem despojada, converte o quotidiano prosaico da prisão, que dissolve a medula dos sonhos e dos homens, e os momentos dramáticos – a arbitrariedade dos carcereiros, a resistência dos presos por meio da greve de fome – numa narrativa indispensável para as gerações que tentam compreender o país que receberam e que devem incorporar as sombras do passado de uma sociedade que ainda reluta em lançar luz sobre elas.
Há um aspecto singular nesses textos, em geral coloquiais. Eles são o testemunho de um jovem frade dominicano, engajado nas opções mais radicais de combate ao regime militar. Revelador em alguma medida do compromisso de uma parte expressiva da Igreja Católica no Brasil, aquela identificada com a Teologia da Libertação, com as lutas pela redemocratização e pela participação popular nas decisões do país.
Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athaíde) destaca, no prefácio: “(…) Independentemente de todas as conseqüências inesgotáveis de ordem teológica, filosófica, moral e política, em sentido rigoroso, que estas cartas do cárcere contêm, quero logo destacar sua importância estritamente cultural”. Reeditar estes textos, neste momento da vida política e cultural do Brasil, significa oferecer uma contribuição valiosa para alcançar a compreensão madura da tragédia que nos colheu por duas décadas, e que reclama um resgate incontornável para cumprirmos o caminho da construção de uma democracia contemporânea do século XXI.


