A HISTÓRIA DA DESTRUIÇÃO CULTURAL DA AMÉRICA LATINA

O interesse pelo livro A história da destruição cultural da América Latina: da conquista à globalização, de Fernando Báez, começa pela apresentação de rica documentação que reproduz leis sobre a defesa do patrimônio cultural dos povos latino-americanos – pouco conhecidas e raras vezes respeitadas.
A primeira parte do livro é um inventário detalhado da pilhagem, destruição e subordinação da cultura dos povos latino-americanos. A abordagem regional e cronológica revela o extermínio de línguas, músicas, danças, cultos religiosos, literatura, objetos e costumes dos povos que viviam na América Latina antes da chegada dos europeus, e denuncia os Estados autoritários que, ao longo do século XX, assassinaram e censuraram artistas e intelectuais.
Na segunda parte, o escritor venezuelano retorna à experiência de suas pesquisas anteriores acerca do “saque cultural na história” ocorrido em diversas regiões do planeta por intermédio de guerras, relações comerciais desiguais e domínio de impérios. Apesar do interessante e rico mapeamento, o livro perde fôlego, torna-se repetitivo e reduz a capacidade de aprofundar os episódios propriamente latino-americanos.
A terceira e última parte é dedicada a explicar a relação entre a destruição cultural, a subtração da memória e a construção da identidade dos povos. Neste ponto, apesar da erudição, o autor adentra temas complexos.
A visão catastrófica o conduz a ignorar que a memória e a cultura dos povos latino-americanos não foram completamente esquecidas. O que sobrou (pouquíssimo) foi resignificado e produziu uma cultura de resistência que hoje configura a demanda da maior parte dos movimentos sociais da região, notadamente daqueles que reivindicam a valorização das culturas locais em detrimento da globalização.
O predomínio de uma cultura predadora externa e interna não elide a existência de uma cultura resistente e a valorização do que José Martí chamava, ainda em 1889, de “nuestra América mestiça”.