A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO DÁGUA

Jorge Amado não se preocupou em construir uma obra estética, mas ele tinha a imaginação de um narrador oral do Norte da África. Aos que nunca leram um livro do escritor, cuja obra está sendo relançada pela Companhia das Letras, sugiro começar pela novela A morte e a morte de Quincas Berro Dágua.
    Como diz o título, trata-se de duas mortes do mesmo personagem. Há ainda uma terceira: a morte moral da família, depois que o protagonista abandona o lar. Antes de ser o “Rei dos vagabundos da Bahia”, Quincas foi Joaquim Soares da Cunha, o pacato e correto pai de família e funcionário público. Morto, os familiares tentam recuperar a dignidade do outro, quando vivo. Dois personagens na mesma pessoa, e dois passados de vidas opostas, no mesmo morto.
    A novela trabalha com esses dois registros: a vida exemplar e a vida vagabunda. A primeira refere-se ao tedioso cotidiano de uma família de classe média de Salvador: a mulher rabugenta de Joaquim, a filha não menos ranzinza, o genro e o irmão.
    Mas Quincas é um morto ou um “defunto vivo”? Durante o velório num quartinho da Ladeira do Tabuão, o defunto olha sua filha com “um sorriso cínico, imoral, de quem se divertia”; ele se dirige à sua irmã Marocas com um apelido nada edificante e faz com o polegar um gesto de deboche. Quando os amigos chegam ao velório, eles não acreditam que Quincas está morto. É notável o diálogo entre o “defunto” e os amigos. E não menos notável a andança dos vivos com o morto pelas ruas de Salvador até o cais, onde Quincas, velho marinheiro, embarca num saveiro para uma viagem ao fundo do mar. Durante uma tempestade, Quincas se deixa envolver por sua própria vontade “num lençol de ondas e espuma”.
    A reviravolta do destino – o morto que se revela vivo e escolhe a hora e a maneira de morrer – é típica da novela enquanto gênero. Mas algo nos diz que ele realmente está morto. Essa ambigüidade em tom de farsa, que a narrativa explora o tempo todo, é um dos grandes feitos dessa novela exemplar da nossa literatura.