A música popular que surge na era da Revolução

O trabalho de José Ramos Tinhorão já se prestou a muita polêmica, alimentada não só por seus detratores como também pelo historiador. Em parte, isso se deve à inclinação propagandística de um autor que começou no jornalismo (de modo geral, as relações entre o texto de imprensa e as modernas técnicas de venda ainda estão por ser explicadas). Mas também se deve ao posicionamento ideológico de Tinhorão, desde sempre radicado no materialismo histórico e na defesa tanto das classes baixas quanto da cultura a que se poderia chamar nacional-popular. Mas embora os seus contrários constantemente se refiram a ele por meio de ofensas (de marxista que utiliza “tacape” a crítico “idiota”), reconhecem-lhe também, com constância, a amplitude e o rigor da pesquisa historiográfica.
O livro A música popular que surge na era da Revolução (Editora 34) dá prosseguimento a esse trabalho, expandindo-lhe as fronteiras de pesquisa. Além da música popular de Portugal e do Brasil (ainda no tempo da América portuguesa), o autor pesquisa a música urbana da França durante o século XVIII e, sobretudo, a partir de 1789, chegando até a década de 1880.
Tendo como marcos a Revolução e a Guerra Franco-Prussiana, Tinhorão analisa o “gosto popular pelas canções de tom marcial”. Seu interesse não se volta para as relações entre a música da Revolução e, por exemplo, Beethoven – tópico sobre o qual há vários estudos. Seu foco são as ruas de Paris, os cantares da cidade que assinalam “a ascensão das camadas populares ao plano da vida político-social”. Um público engrossado pelas “camadas burguesas (e até mesmo da nobreza…)” sempre ávido por novidades e diversão.
Quanto a Portugal e sua colônia, Tinhorão analisa as repercussões, no plano cultural, do isolamento político e econômico. É nesse contexto que o autor atribui às formas da modinha e do lundu, sintetizadas “pelo mulato brasileiro Domingos Caldas Barbosa” e apresentadas às “camadas brancas” de Lisboa, o duplo papel de “estilo em voga” e “canção nacional”.