A rima na escola, o verso na história

Como repensar a educação pública brasileira sob novos parâmetros? A autora nos responde ao relatar o processo de trabalho realizado em sua pesquisa na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, com um grupo de jovens afro-indígenas que vive em uma zona empobrecida da cidade de São Paulo. Os pais/avós desses jovens vieram do sertão pernambucano por ocasião da construção do estádio do Morumbi, na década de 1950, passando a residir em área ocupada junto às margens do Rio Pinheiros. Trata-se de uma pesquisa-intervenção baseada na criação poética, realizada com alunos da oitava série do ensino fundamental de uma escola municipal, localizada em uma comunidade do bairro Real Parque, em São Paulo.
Muitos desses jovens descendiam do grupo Pankararu, mas negavam suas origens. Não se consideravam indígenas e rejeitavam todo e qualquer pertencimento étnico-racial-cultural ao grupo de seus pais/avós. Tendo em vista a Lei n. 11.465/08, que torna obrigatória a introdução das culturas indígena e afro-brasileira no ensino escolar, Maíra Ferreira estabeleceu contato com o universo da cultura Pankararu em uma de suas aldeias, além de mergulhar no universo poético do sertão nordestino: cordel, cantoria de viola, coco e embolada. Ciente de que os jovens afro-indígenas paulistanos poderiam ser continuadores da criação poética e musical do sertão, a pesquisa possibilitou um diálogo com o passado recente daquela comunidade, confirmando a hipótese da autora de que os jovens poderiam apropriar-se desse passado. Dessa forma, teriam mais condições de (re)contar e (re)criar suas histórias, em um processo de resistência cultural.
Em uma bela trama, que une a tradição das comunidades de origem com a produção estética dos jovens na atualidade, Maíra criou espaço para o surgimento de uma atitude poética, na qual a subjetividade brotou em versos e em cantos de resistência. A memória ancestral ainda viva debaixo das cinzas foi reativada pela poesia popular. É importante apontar a análise dos teóricos e dos conceitos que serviram de sustentação ao seu trabalho acadêmico, que recebeu o prêmio Patativa do Assaré do Ministério da Cultura brasileiro.