A SANTA ALIANÇA: CINCO SÉCULOS DE ESPIONAGEM NO VATICANO
O segredo está no núcleo do poder. Elias Canetti, em Massa e poder, afirma que uma das características do poder é a distribuição desigual do “calar das intenções”. O mote vale para o poder acumulado pelo Estado do Vaticano, cuja política é uma das obsessões do escritor e jornalista espanhol de raízes peruanas Eric Frattini.
No livro, o autor não escreve sobre as origens misteriosas do cristianismo ou o catolicismo em geral, mas especificamente sobre as atividades clandestinas do poderoso serviço de espionagem do Estado do Vaticano, leia-se Santa Aliança, instituído em 1566 por ordem do papa inquisidor, Pio V, e o complementar serviço de contraespionagem, Solidatium Pianum, criado pelo conservador Pio X, em 1913.
Frattini lança um indispensável olhar profanatório sobre a aura de sacralização que sempre envolveu a instituição do papado. Sem meias palavras, deixa claro ao leitor que, por ordem do papa, sacerdotes-agentes “mataram, roubaram, conspiraram e atraiçoaram em nome de Deus e da fé católica”.
Trata-se de uma comprovação textual dessas iniquidades, ligadas aos principais fatos históricos dos últimos cinco séculos. Depois da consolidação da Santa Aliança, já no século XX, a ambição do papa Pio XII de evangelizar o leste da Europa e silenciar diante do extermínio de 6 milhões de judeus; a ajuda da Santa Aliança na fuga de criminosos nazistas; os vínculos entre o Banco do Vaticano e a loja maçônica P2, a máfia de armas; as relações entre CIA e Santa Aliança no financiamento do sindicato polonês Solidariedade; o apoio a ditadores latino-americanos como Somoza e Jorge Videla. Inclua-se também a estranha morte do papa João Paulo I e os atentados a João Paulo II – há uma foto importante que registra o momento em que Ali Agca dispara contra o papa, em 13 de maio de 1981.
Enquanto preparava um de seus livros, Frattini foi advertido por um advogado de direito canônico que a Igreja tem mais de 2000 anos de secretismo, e que, para o Vaticano, cuja cidade-Estado completou 80 anos, “tudo o que não é sagrado é secreto”.


