A VIAGEM DO ELEFANTE

Entre as narrativas escritas, dizia Walter Benjamin, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos narradores anônimos. Anônimos e loquazes e sábios e atemporais, poderia completar o filósofo alemão, se lhe caísse nas cadavéricas mãos um exemplar deste notável A viagem do elefante, o mais novo e mais farfante livro de José Saramago. É com a leveza das palavras ditas, com a espontaneidade das histórias imemoriais alinhavadas ao serão, que se vai narrando o improvável percurso de um elefante que se aliena, pata ante pata, de Lisboa até Viena. Não por espontânea vontade, deve-se dizer: o elefante é um presente de dom João III a Maximiliano da Áustria, e terá sempre a companhia diligente de seu condutor e tratador, para além do apoio, ora atrapalhado, ora indulgente, de duas sucessivas comitivas.
Uma aventura ao estilo antigo, pensaria Benjamin, ou o leitor destas parcas linhas quando souber que ao elefante e ao tratador cabe enfrentar os acidentes geográficos, as intempéries climáticas, os desmandos dos que governam o trajeto e os mandos dos que pensam governá-lo, o entusiasmo dos que veem no animal um deus, a superstição dos que o creem um santo e a ira dos que preferem reconhecer nele uma possessão diabólica. Um conjunto de façanhas épicas a que não hão de faltar mensagens, “as considerações mais ou menos certeiras sobre a natureza humana”, que tanto aprazem a Saramago e a outros clássicos.
Teria pensado certo, Benjamin ou o leitor, mas esquecido de cogitar também o contrário, que não lhe deve nada em verdade. Um romance ao estilo moderno, sem os avanços, as acumulações e os enriquecimentos da epopeia, sem enlevações ou aprendizados velhos – como dom Quixote e Sancho Pança, como Bouvard e Pecuchet, o elefante e o tratador vivem com intensidade as peripécias, mas delas não saem nem um pouco transformados. Um romance irônico, informado sobre o fracasso inevitável da representação, disposto a brincar com as convenções literárias, ciente de que “isto são palavras, e só palavras, fora das palavras não há nada”.