Adam Smith em Pequim

O livro de Giovanni Arrighi distingue-se por sua enorme erudição e pela capacidade de transitar, com extrema facilidade, entre as teorias sobre o desenvolvimento e a História. Trata-se de um passeio por autores clássicos (Marx e Shumpeter, entre outros, mas, especialmente Adam Smith) e um sem-número de analistas, pesquisadores e comentadores, simultaneamente à análise de processos históricos que envolvem o Ocidente e a Ásia desde séculos anteriores. O resultado é uma meticulosa análise do passado – tendo como eixo o crescimento econômico e suas conseqüências – com vistas a compreender o futuro que progressivamente se instaura desde a ascensão de vários países asiáticos, culminando no espantoso crescimento da China.
    A partir da releitura do famoso livro de Smith, A Riqueza das Nações, que no século XVIII profetizara sobre o crescimento econômico da Ásia como ponto de equilíbrio ao Ocidente, Arrighi procura testar os argumentos do autor à luz dos acontecimentos desde a segunda metade do século XX aos dias de hoje por meio de dados e análises, o que inclui a inserção de inúmeros intelectuais e pesquisadores orientais.
    Para Arrighi, “Assim como Smith não era teórico nem defensor do capitalismo como motor da expansão econômica ‘interminável’, também não era teórico nem defensor de mercados ‘auto-regulados’. Ao contrário da opinião geral, a idéia de que, com o tempo, a acumulação de capital tende a fazer a taxa de lucro cair e acaba pondo fim à expansão econômica não é de Marx, e sim de Smith”. Esta passagem ilustra a validade metodológica da obra de Smith e sua atualidade para pensar a China numa perspectiva histórica, o que, contudo, é bastante controverso, tendo em vista outras leituras de Smith como um dos ideólogos do liberalismo.
    A obra é marcada por uma incrível erudição e pela projeção de cenários tanto sobre o “Sul” – a Ásia e especialmente a China como líderes dos países periféricos –, como pela avaliação de sua relação (e do papel que caberá) ao “Norte”, os EUA e a Europa, dada a possível transferência de hegemonia (tema central na obra). Por tudo isso, instiga a todos os que se interessam por um texto ao mesmo tempo histórico, criterioso, opinativo e controverso!