ARTISTA DO MÊS: RICARDO COIMBRA
Para a coluna deste mês, entrevistei o mineiro Ricardo Coimbra, um dos grandes nomes do quadrinho de humor contemporâneo.

Como você começou a fazer quadrinhos? O que o motivou? Foi algo espontâneo ou você sempre pensou em fazer?
– Comecei como boa parte dos quadrinistas: desde moleque gostava de desenhar e ler gibi. Mais tarde, na adolescência, meus interesses mudaram um pouco. Queria ser jogador de futebol, depois piloto de helicóptero, baterista de rock e, como falhei miseravelmente em tudo isso, tentei os quadrinhos, onde também falhei, só que um pouco menos miseravelmente. Então, posso dizer que o que me motivou foi a falta de opção.
O que você acha do cenário atual dos quadrinhos nacionais?
– Tenho visto bastante gente produzindo, lendo, discutindo. A internet deu um novo gás – pelo menos para o quadrinho independente, com essas possibilidades de autopublicação, financiamento coletivo, divulgação. Sou de uma geração de transição, peguei o começo da internet e lembro um pouco como eram as coisas antes. Agora é bem mais democrático, qualquer um com acesso a banda larga pode publicar o próprio trabalho. É claro que isso não é sempre garantia de qualidade; se você procurar na rede, vai encontrar muita coisa ruim, mas também vai achar muita coisa boa.
O que o inspira para criar? Você tem algum assunto que particularmente lhe interessa?
– Boa pergunta. Pensando assim, tenho temas recorrentes, mas o que todos eles têm em comum é que surgiram por causa de alguma irritação minha com alguma coisa. Eu pertenço a esse grupo de pessoas que precisa estar com raivinha para produzir.
Você vai lançar este ano seu primeiro livro, não é? Conte um pouco sobre o projeto.
– É uma coletânea de tudo que já publiquei em revistas, zines e no meu blog, o Vida e Obra de Mim Mesmo, que está no ar desde 2009. Vai se chamar Vida de prástico e deve sair mês que vem pela Editora Gato Preto.
O que você acha do engajamento político nos quadrinhos de humor? É válido?
– Sim, mas não obrigatório. Acho que quadrinho, como qualquer outra linguagem, tem de ser livre. Quem quiser colocar seu trabalho como instrumento de uma causa, vá em frente. É uma forma possível de fazer humor no quadrinho, mas não é a única, obviamente.
Atualmente todo mundo fala sobre os limites do humor. O humor tem limites?
– Não. Eu acho que humor não pode ter limite. Fico com o Luis Fernando Verissimo quando ele diz que humor tem de ser irreverente, no sentido de não fazer reverência a nada. Eu acho que um dos motivos que temos para rir de alguma coisa é justamente a proibição de rir dela. O tal do politicamente incorreto vem disso. As pessoas sempre mandam essa frase, que já virou um chavão: “Ah, mas o humor tem de atacar o status quo”. OK, mas qual status quo? Porque quando você vem me dizer do que eu posso ou não rir você se torna também um tipo de status quo. Seria possível imaginar que alguém que faz uma piada com alguma minoria, por exemplo, talvez não esteja mirando essa minoria, mas seus defensores, que, com sua indignação, são de certa forma os guardiões da proibição, portanto alvos preferenciais do humor.

