As artes da ameaça – Ensaios sobre literatura e crise

Os ensaios que compõem esse livro problematizam a relação entre literatura e crise, condensada na imagem “as artes da ameaça”, título do volume. Essa imagem integra o tema escolhido por Hermenegildo Bastos ao método de crítica literária por ele realizada a partir da tradição dialética e histórica, com ênfase na concepção lukacsiana da estética. Com essa imagem, o autor sugere que as artes ameaçam o mundo reificado e simultaneamente são ameaçadas pelo mundo que desejam superar. O título é, então, como o é a própria literatura, imagem e não conceito. Como imagem artística, a literatura se configura como um mundo em si, que articula suas partes internamente para criar um todo acabado. Assim, a literatura refaz o caminho de volta ao mundo de onde partiu; mundo que se torna, pela mediação da forma literária, mais rico e humano – um mundo para nós –, que permite ao leitor reconhecer-se como homem inteiramente, como parte do gênero humano. Esse processo de afastamento ou negação do mundo desumanizado e de retorno a ele em dimensão humanizadora para o leitor é realizado pelo trabalho poético, que, opondo-se ao trabalho estranhado, faz da literatura uma ameaça à lógica fetichizada e reificadora do capitalismo e a seu progresso triunfante, mas sempre em crise, posto que carrega consigo a ameaça de destruição da humanidade. Entendendo que a literatura fala do mundo ao falar de si mesma e que, como parte da superestrutura, pode se antecipar às crises que eclodem na infraestrutura, o autor pergunta às obras literárias que analisa: “Como essas obras previram e predisseram o fracasso do projeto civilizatório que se abateu sobre nós? Como lhes foi possível captar a ameaça na promessa que aninhavam?”. O que lemos nos ensaios é aquilo que o crítico encontrou nos textos literários: respostas problematizadoras, autoquestionadoras, distantes de soluções fáceis ou idealistas, figuradas em um mundo próprio que reflete artisticamente o mundo presente dos homens e que, a partir da memória do passado, afirma a necessidade de construir “caminhos outros para um mundo outro”.