AS ORIGENS DO FASCISMO – JOSÉ CARLOS MARIÁTEGUI

O livro As origens do fascismo reúne 37 artigos do revolucionário peruano José Carlos Mariátegui, compilados e traduzidos por Luiz Bernardo Pericás, e merece ser lido por diversos motivos. O mais evidente deles – e mais ressaltado pela edição – é o conjunto de informações e reflexões trazidas por Mariátegui sobre a ascensão do fascismo italiano, processo por ele acompanhado de perto e discutido em diversos textos produzidos e publicados no calor dos acontecimentos. O prefácio de Pericás situa a problemática e facilita uma apreensão crítica deles.
Mas a relevância da obra revela-se também em outras dimensões, merecendo destaque o amadurecimento do marxismo de Mariátegui. É sabido que seu pensamento às vésperas da ida à Europa, em 1919, era marcado pelo idealismo; foi o aprendizado político, teórico e prático, dos três anos vividos na Itália que engendrou sua reflexão madura. A ascensão do fascismo é elemento central nesse processo, o que pode ser apreendido em uma leitura genética de sua obra, facilitada pela disposição cronológica dos artigos. Vale destacar que diversos temas tratados nos primeiros artigos são retomados, revistos e aprofundados nestes últimos, evidenciando-se a superação de uma visão inicialmente otimista e até ingênua, e a percepção da necessidade de uma compreensão rigorosa da derrota da revolução na Itália e da consequente ascensão do fascismo. Tal reflexão conduziu Mariátegui a radicalizar sua crítica ao reformismo e consolidar sua defesa do marxismo revolucionário.
Destaca-se ainda a impressionante coincidência entre algumas temáticas da reflexão do peruano com aquelas que seriam desenvolvidas por Gramsci nos “Cadernos do cárcere”, como a análise das relações de força, a ação partidária da imprensa e o papel político desempenhado pelos intelectuais. As terríveis condições de saúde e a morte precoce não permitiram o pleno desenvolvimento dessas reflexões, mas sua fertilidade pode ser encontrada em uma leitura atenta desta valiosa obra.