CATATAU

A aventura de abrir um livro é sempre “O que virá?” A aventura de abrir Catatau, o que será? Antes de se arriscar, o leitor deve saber: é uma obra heteróclita – excessiva e de exceção – do curitibano Paulo Leminski, que foi poeta, tradutor, letrista, judoca, publicitário. Figura ímpar na literatura brasileira, forjou uma poética de oscilação entre o rigor concreto e o coloquialismo sedutor. Conversa oblíqua de samurai: o tom jocoso de sua poesia oculta o trabalho do verso, a precisão sonora, o trocadilho certo. De um poeta como este, nosso leitor não vai esperar uma incursão na prosa obediente à narrativa linear e ao estilo realista, mas sim os (des)caminhos da experimentação linguística que levaram o autor a se dedicar à sua composição por oito anos, entre 1966 e 1974. Mesclando tropicalismo e mitologia clássica, Catatau foi publicado pela primeira vez em 1975. Ao que parece, seu projeto era conhecido de longa data no meio literário, o que não contribuiu para atenuar o estranhamento que sua leitura provocava. Lançado com o subtítulo de “romance-ideia”, foi comparado ao Finnegans Wake (1939), de James Joyce, e às Galáxias (poema-livro escrito entre 1963 e 1976, somente publicado em 1984), de Haroldo de Campos.
Se a erudição do poliglota Leminski, temperada pela irreverência da contracultura (em parte, refreada pela ação política da ditadura militar), remete a um texto imbricado nas discussões sobre a arte de vanguarda, o tema de fundo nos leva a uma velha questão em nossa literatura: as indagações sobre a formação de uma identidade nacional. A partir de um fato imaginário, como a estada do filósofo Descartes em Pernambuco durante o século XVII, Leminski irá problematizar a aplicabilidade de uma razão única, embasada na lógica cartesiana, em solo brasileiro. Sua aposta na alteridade, na convivência dos contrários, surge não apenas como, mas, sobretudo, no discurso. É isso o que torna a experiência de leitura do Catatau tão intensa quanto desafiadora.