CAUSOS DO SANTIAGO

 

Poderia começar descrevendo uma cena com uma roda em volta do fogo, o chimarrão passando e as pessoas caindo para trás de tanto rir das histórias do Neltair, o famoso Santiago. Mas isso seria um esforço de imaginação porque apenas uma vez fiquei na cozinha do Santiago, num inverno particularmente frio, ao lado do fogão de ferro. Também não posso afirmar que as histórias desse livro tiveram antes uma encarnação puramente verbal (e mímica) e depois sofreram a metamorfose para os quadrinhos. Garanto que eu nunca tinha ouvido muitas delas e que várias outras que já ouvi de sua boca não entraram nesse livro, o que me deixa com esperança de ver surgir um segundo volume…

O fato é que o Santiago contador de histórias e o Santiago cartunista enfim se encontraram. Quem nunca o viu na vida já deve ter cruzado com seus cartuns, que contam a história do Brasil recente em seu traço de “linha fina” delicada e sinuosa. Quem o conhece pessoalmente guarda sempre a lembrança dos causos que parecem invenção, mas que são memória e os quais ele oferece como um brinde para o ouvinte. Que se regozija da sorte de ser ouvinte e não abre mão de continuar sendo, abrindo a boca o menos possível. Pois os dois se juntaram e geraram um terceiro: o quadrinista tem o traço e a síntese do cartunista, o humor e a concisão do “causista” (“causador”?), mas é um pouco além disso também.

É um retratista. Como acontece na saudável vertente autobiográfica, todo um filão das histórias em quadrinhos atuais, o autor olha para o mundo ao redor e faz um retrato do que vê. Nesse livro, o Santiago se diverte tanto registrando usos, costumes, objetos e manias cotidianas de anos atrás (e de quilômetros distantes, como nas histórias de sua Santiago de infância e adolescência) quanto revelando o humor das situações e dos personagens que ele nos apresenta. Um retratista perigoso, como talvez seus retratados façam questão de apontar, e como era o personagem de uma das histórias do livro.

 

Fabio Zimbres é  Ilustrador.