COMO O BRASIL MUDOU NOS ÚLTIMOS CINQUENTA ANOS

Quem voa no balão da história vê o mundo de outra perspectiva. A altura torna minúsculo o que já é pequeno e aguça o olhar para as formas difíceis de ver do chão. Desloca a interpretação, de eventos para estruturas mais perenes, e, de certo modo, afasta a análise das paixões políticas de cada momento. Lá em cima some o que é migalha, aparece o que importa. Voar faz bem ao entendimento.

E foi voando nesse balão que Trajetórias das desigualdades foi escrito por um grupo de 26 pesquisadores. Coordenado por Marta Arretche, o livro é uma organização de estudos sobre a evolução das desigualdades na participação política, na educação, na renda e nas condições de habitação no Brasil ao longo de cinquenta anos. Apoiando esses estudos estão análises do comportamento demográfico e religioso no país. São cinco décadas de Brasil esmiuçadas com base em quase todos os números que os Censos são capazes de prover. Quando o Censo falta, dados vêm de outras pesquisas.

Não é um livro que conta a história da desigualdade. É um livro que conta a história pela desigualdade. Este não é um joguinho de palavras, mas a constatação de que para entender o que as pessoas podem fazer dentro de uma sociedade tão hierarquizada como a brasileira é preciso saber o que fez o Brasil ser tão desigual e como as décadas vêm mudando isso. Nisso o livro acerta em cheio: oferece algo que não aparecia há tempos, uma análise de longo prazo e perspectiva ampla que destaca o papel crucial que a desigualdade social tem na história do Brasil.

São quase quinhentas páginas, mas vale a pena lê-las. Umas mais, outras menos, como sempre acontece com coletâneas. Todas, porém, escritas com seriedade. De tudo que cabe em tanto papel, há um argumento que talvez seja o que costura o livro: quando ocorreu, a redução da desigualdade não foi resultado de mudanças paradigmáticas na política voltadas a esse propósito, mas de pequenos ajustes nos desenhos de programas que universalizaram o que antes era em boa parte privilégio. Ou seja, uma história de igualdade por inclusão, e não de igualdade por redistribuição.