CRÔNICAS INÉDITAS 2
A cultura brasileira está mais rica. Velhos textos de Manuel Bandeira, publicados em jornais a partir de 1920, e que neles seguiam embolorados, amontoados em arquivos inacessíveis ao público, acabam de ser resgatados e editados graças ao trabalho minucioso do poeta e crítico literário, Júlio Castañon Guimarães.
A edição primorosa da prosa do poeta vem sendo realizada pela editora Cosac Naify e iniciou-se, em 2006, com Crônicas da província do Brasil. Prosseguiu com o primeiro volume de crônicas inéditas, contendo a produção jornalística de 1920 a 1931, e se completa agora com Crônicas inéditas 2, que abrange o período de 1930 a 1944.
Desses velhos papéis, que guardam registros fascinantes das primeiras décadas do século passado, é possível depreender um retrato do Brasil de corpo inteiro, traçado por uma inteligência cintilante, um espírito cultivado e atento a tudo que se passava na cena cultural, não só brasileira, mas internacional. Não por acaso, como registra Júlio Castañon, esses escritos são contemporâneos de Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre, e de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, ainda que não tenham a mesma densidade nem os mesmos propósitos. São textos de intervenção, calcados em uma compreensão profunda de nossas práticas culturais. Deles pode-se dizer, sem medo de errar, que equivalem em importância ao resgate da cultura brasileira realizado por Mário de Andrade.
A diversidade de temas (literatura, artes plásticas, teatro, arquitetura e linguagem, entre outros), tratados numa prosa cheia de graça e rigor, demonstra que essas crônicas ultrapassam em muito o sentido usual atribuído ao gênero, de texto de circunstância, ou breve exercício de celebração do cotidiano. Mais que isso, ampliam a compreensão da obra de Bandeira, tantas vezes reduzida e decifrada apenas pela sua tuberculose e seu enamoramento da morte. Vale a pena conferir esse novo coaxar, instigante e provocador, do velho sapo cururu, da beira do rio.


