FILME – HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO

O filme é uma grande surpresa – estética, política – do cinema nacional em 2014. Vencedor de diversos prêmios, inclusive no renomado Festival de Cinema de Berlim, o primeiro longa-metragem de Daniel Ribeiro conta com muita sensibilidade a história do primeiro amor de um adolescente cego. Além de lidar com a família superprotetora e o ambiente escolar implacável do ensino médio, Leonardo (Guilherme Lobo) fica mexido com a chegada de um novo colega de classe, Gabriel (Fabio Audi).

Muito já se falou da leveza da trama no âmbito emocional/narrativo, e realmente o filme é só acerto na forma sutil como retrata o desabrochar do amor adolescente – gay ou não. Mas o que nos interessa mais aqui é o contexto de produção e distribuição, que faz do longa um espetáculo.
Produção independente sem grande orçamento, atores renomados do mercado televisivo brasileiro ou grande estrutura, Hoje eu quero voltar sozinho conseguiu alcançar e engajar um público expressivo por tratá-lo como igual, como representável. Nas primeiras semanas de lançamento no país, após uma campanha intensiva nas redes sociais (e também após o buzz que o filme ganhou ao vencer Berlim), alcançou R$ 2 milhões em bilheteria, mas não só: motivou os espectadores longe dos espaços óbvios do Sudeste a pressionar os cinemas locais para exibir o filme. A distribuição nasce da conversa com o público – hoje mais de 300 mil pessoas curtem a página do Facebook. Eis o grande mérito.
A produtora Lacuna Filmes, que assina o longa, optou também por vender o DVD “pirata oficial” a preços populares direto no site (para comprar, acesse: <www.lacunafilmes.com.br/dvd-pirada-oficial-hoje-eu-quero-voltar-sozinho.html>). Não que o “combate à pirataria” fosse uma grande questão (Ribeiro é da geração de diretores que baixa filmes), mas encontrar um modelo de negócios não opressor foi uma opção ética (assim como o próprio assunto do filme). Pesquisas no mundo inteiro mostram que, quanto mais downloads “ilegais”, mais vendas. Logo Hoje eu quero voltar sozinho é também um dos filmes mais baixados em lojas de aplicativos mobile.
Resumindo: o filme levanta a bandeira gay de forma delicada e inclusiva, é distribuído no olho no olho com seu público e dá exemplo de como obras de arte podem, sim, ser rentáveis no mundo pós-revolução digital, desde que o lucro não seja o principal objetivo. Inauguro esta nova seção de cinema do Diplô imbuída de esperança, com o desejo de que o cinema nacional independente continue nos surpreendendo. Hoje eu quero voltar sozinho merece a visibilidade que o Oscar dá (dedos cruzados!).

