FRICA NO BRASIL – A FORMAÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA
Chega ao Brasil “saturado de agoras” das políticas afirmativas, livro com textos franco-brasileiros organizado por Fiorin e
Petter. Reúne e traz à memória línguas da diáspora, crioulo santomense, dicionários e gramáticas de falas afro-brasileiras, português falado às vésperas do Estado Novo em um Brasil alheio a imperativos de união, a par de novas línguas urbanas em Áfricas.
Impasses ao estatuto crioulo, semicrioulo ou descrioulizante de variantes lusófonas abrem críticas a tipologias e ideários unitários. Estudos de Rougé, no vai-e-vem de práticas portuguesas entre São Tomé e Brasil merecem atenção. Do açúcar na ilha, em inícios do XVI, surgiram crioulos entre aquilombados do mesmo século. Sob sistema kinté (quintal), escravos recebiam terra, viviam em famílias e subsistiram a senhores que, sem presença e controle, sucumbiram a rebeliões. Poderes distantes inviabilizaram mercadorias e produziram línguas crioulas. Em retorno maciço a São Tomé no fim do XIX, portugueses plantaram cacau e café em sistema casa grande/senzala, vivido no Brasil em relações de poder contíguas e coercitivas, isolando e punindo. Em violento e hierárquico escravismo, adveio fala dos tongas, com “enormes similitudes (…) a variedades do português vernacular brasileiro”. Rompendo muros de estudos: quais histórias revelam circuitos atlânticos luso-brasileiros?
A relevância de África no Brasil advém de questões de eurocentrismos e idéias de “língua geral” ou “síntese cultural entre diversidades de uma unidade” (Freyre), que nutriram climas estadonovistas transatlânticos. Abordando léxico, morfologia, sintaxe e semântica, o livro traz jogos de poder e ambigüidades político-acadêmicas, apontando impossíveis leituras de falas diaspóricas de modo unilateral: “questões raciais” da modernidade européia inserem-se no Atlântico, fluindo entre Europa, Áfricas, Américas, alertando para construídas lusofonia e latinidades. Vale lembrar que sem língua em si, falas resultam de usos subjetivos que falantes imprimem aos sons, ritmos, gestos de uma base lingüística, em luta de forças. Sem esquecer que africanos vivenciam tradições orais, sendo a língua a medula de identidades em zonas de contato, ainda vivas em Áfricas.


