Garagem Lírica
Marcelo Montenegro publicou seu primeiro livro, Orfanato portátil, em 2003. Desde então, participou de antologias e lançou poemas em revistas, sites e em seu espetáculo Tranqueiras líricas. Quase dez anos depois, o poeta coloca um novo livro na praça, Garagem lírica, e a qualidade revelada em sua primeira obra se mantém.
Uma forte característica de seu primeiro livro é preservada, a de trabalhar a ação (das pessoas, das coisas, das ideias, dos textos) pela captura de momentos reveladores. Como no tira-teima em que conferimos polêmicas futebolísticas, ele congela a imagem para entender o movimento. O poema “Filme”, por exemplo, começa com “Você pede para eu apertar o pause/ e vai ao banheiro/ deixando ao meu lado/ seu cheiro quente/ no travesseiro amassado”. Na volta, o casal ri da imagem parada do ator. Montenegro faz isso muitas vezes − aperta o botão de pause para que enxerguemos melhor algumas coisas. É a poética do instante, que ele faz com maestria.

Suas sacadas, baseadas em espantos, devolvem ao leitor o espanto que virou poesia. “Mapas malucos em muros úmidos./ Bolhas num adesivo./ Dedo cortado por uma página. O espanto é um bairro/ no olhar do meu filho.”
Como um modernista lírico, o cotidiano é farta matéria-prima. “Na quermesse dos sentidos,/ onde a noite troca de pele/ com o dia – O céu esfolado,/ anjos em velocípedes –/ A esfiha que sobra/ na lanchonete que fecha/ Onde o espanto/ lustra seus rifles.” Além de técnica, o poeta precisa ter faro. E saber ver a “Garoa/ que a luz do poste revela”.
No fim do livro, Montenegro arrola suas referências. Isso ajuda a compreender seu universo e seus diálogos (com a prosa, o cinema, a música, o cult, o pop), mas é em seus poemas que ele expõe seus métodos (ou fórmulas). E o lugar de onde o poeta observa a poesia das coisas é interessante. Seu olhar é o de um diretor de cinema que prescinde das aparelhagens todas. Ao mostrar o que pode ser encontrado em casa, na rua, em leituras aparentemente despretensiosas e em conversas com amigos, é como se ele democratizasse a poesia.

