Garibaldi na América do Sul: o mito do gaúcho

O livro de Gianni Carta interessa sobretudo a estudiosos de literatura, jornalismo e história. Mas vai muito além desses campos específicos. Podemos incluir antropólogos, psicólogos, outras especialidades psi- e, last but not least, os amantes de uma bela e romântica aventura.

Baseado em sólida pesquisa documental, o livro parte da trajetória extraordinária de Giuseppe Garibaldi para delinear como a imagem desse herói gaúcho, uruguaio e italiano sobreviveu à sua vida histórica, passando ao terreno do mito.

Para tanto, o livro detalha como aqueles escribas que o cercaram construíram a imagem de um homem extraordinário, um recuperador romântico de uma pátria perdida, a sua Itália, ou a do construtor de novas, como a do bem-sucedido Uruguai ou a da malograda República Rio-Grandense, cujo território permanece hoje incorporado ao Brasil.

O ensaio se detém na análise de como jornalistas como Cuneo e Rossetti, um político como Mazzini, alcunhado “o Profeta”, e o famoso Alexandre Dumas Pai construíram deliberadamente a imagem com que Garibaldi passou ao futuro e ao mito. E vai além, mostrando como o próprio Garibaldi compreendeu o valor do jornalismo moderno e da literatura romântica como armas políticas e industriou a construção da própria imagem.

Para tanto, Garibaldi construiu-a como a de um “gaúcho” que “invade” a Europa, para envolvê-la na luta pela unidade italiana. Nessa trajetória, o “herói de dois mundos” terminou por dar substantiva contribuição à construção do mito do próprio gaúcho em terras americanas, ajudando também a envolver corações e mentes do pampa argentino, uruguaio e brasileiro.

Chegando aos dias atuais, Carta analisa como sobrevive a imagem do herói na TV, na literatura e no ensaio, em suas diferentes facetas e nuanças tanto no Brasil como pelos demais espaços reais e imaginários por onde ele passou e ainda vive. Num estudo abrangente e rigoroso, Carta mostra como os poderes do jornalismo e da literatura permanecem sendo muito mais fortes do que por vezes cremos.