História da paz


    Depois de História das guerras, Demétrio Magnoli organizou História da paz. Em sua introdução, Magnoli deixa claro que “há tantas histórias da paz quantas se quiser”, o que serve de contraponto àquilo que os Editores resumem em “A paz possível”: “A paz é uma conquista, fruto de esforços diplomáticos, é conciliação entre poderosos, é acordo entre iguais e desiguais. É, como a política, a arte do possível”.  Palavras que, colocadas à guisa de introdução, deixam o leitor ansioso por saber como se deu esse acordo, e aguçam sua curiosidade por saber que outros tipos de história poderiam ser escritas.
    Magnoli preferiu organizar sua história da paz preferencialmente a partir de tratados. Digo preferencialmente porque o livro não consta apenas deles, a história dos tratados sendo complementada pela dos concílios ecumênicos medievais, pela análise das conferências de Bretton Woods, Yalta e Potsdam, da Declaração Universal dos Direitos Humanos e do Protocolo de Kyoto. É pena que no estudo dos tratados não se tenha atentado para o de Briand-Kellog, que cuidava exatamente da paz (antes da guerra).  Igualmente se aceitando o critério da agregação, os resultados das conferências de Haia sobre o uso deste ou daquele instrumento de destruição na guerra deveria merecer atenção.
    Os ensaios que compõem a História da paz não são todos iguais − embora de nível. Merecem leitura por quantos desejam compreender um pouco da história não apenas do Brasil, mas também de fatos que muitas vezes passam despercebidos, como os que se referem à África, mas especialmente à China. É, sem dúvida, uma contribuição para a bibliografia em português (do Brasil) sobre temas de relações internacionais, cada dia mais em evidência. É pena que a leitura do ensaio sobre o Tratado de Não-proliferação Nuclear deixe o leitor com a desagradável sensação de que se pretendeu construir clandestinamente a bomba atômica no Brasil a partir do urânio enriquecido a 98% − esquecendo o autor que o consumo de energia elétrica para chegar a essa porcentagem seria acusado, antes da AIEA, pela Cesp, que fornece eletricidade para Aramar.