Holocausto brasileiro: vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil
No momento em que a Comissão da Verdade se debruça sobre os crimes cometidos por agentes do Estado durante a ditadura civil-militar e em que se discute a desmilitarização da Polícia Militar, a jornalista Daniela Arbex traz ao debate outro grande crime cometido pelo Estado brasileiro durante o século XX: a morte de ao menos 60 mil pessoas no Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais.
Assim como as vítimas da ditadura, os pacientes do maior hospício do Brasil foram torturados, violentados e mortos entre as décadas de 1930 e 1980. Entre os métodos de tortura em comum praticados contra os inimigos do regime militar e os pacientes do Colônia estava o eletrochoque. Na instituição do município, os choques eram tão intensos que, às vezes, a sobrecarga derrubava a rede elétrica da cidade. Muitos morriam. De choque. De frio. De fome. De doenças. As mortes davam lucro. Entre 1969 e 1980, 1.853 corpos de pacientes foram vendidos para faculdades de Medicina do país.

Eram pessoas que haviam sido internadas à força, das quais 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Daniela foi atrás dos sobreviventes desse holocausto brasileiro. E encontrou gente como Silvio Savat, uma das crianças internadas no hospital, confundido com um cadáver quando foi fotografado caído no chão, magérrimo e com moscas sobre o corpo. Hoje, ele vive numa instituição psiquiátrica em Belo Horizonte, aonde chegou, transferido do Colônia, sem conseguir se locomover. Em vez de caminhar, ele rastejava.
Embora o foco principal sejam as vítimas do horror de décadas de maus-tratos a quem dá voz, a obra faz um estudo completo do hospital, de seus funcionários, algozes, cúmplices e do modus operandido genocídio, além de um rigoroso trabalho de investigação jornalística. E tem o mérito de apresentar ao público brasileiro uma história desconhecida. Como Eliane Brum aponta no prefácio: “O repórter luta contra o esquecimento. Transforma em palavra o que era silêncio. Faz memória”.

