JONAS ASSOMBRO
oderíamos resumir assim o enredo desta obra: “Era uma vez um homem chamado Jonas, que exercia o cargo de revisor e escriba do Arquivo Municipal de Assombro, cidadezinha governada por Saari Zuridon, perdida no tempo e no espaço, da qual o protagonista tirou seu sobrenome. Apaixonado por Tamara, Jonas e ela amam-se intensamente, até que Assombro cai sob o poder do tirano Manasses. O casal de amantes é obrigado a refugiar-se em uma caverna. Combatendo pela libertação da cidade, Jonas consegue colocar no poder um regime de governo social democrático. Livre, o par amoroso retorna, casa-se e vive feliz até a morte. No lugar onde são enterrados, nasce um cedro florido”.
Para quem tem experiência com a produção literária do autor, que estreou na poesia em 1960, com Selésis, será fácil depreender que a linearidade do resumo acima foi aqui “montado” ou “recolhido” de uma trama que se constrói como dispersão, por meio de retalhos de idéias esparsas, densamente metafóricas, jogadas aparentemente ao acaso – mas um “acaso” que está, na verdade, muito bem planejado dentro de uma seqüência subjetiva. Nada a estranhar: afinal, Nejar é poeta, e é como poeta que ele envereda pela prosa – a qual, por isso mesmo, é “poema em prosa” ou “prosa poética”. E não é por outra razão que ele classifica seu livro de “crônica” / “fábula” / “mito” ou tudo isso junto.
É um tributo à “memória”. Mas, um conceito de “memória” que é extraído da Retórica clássica: cabe à palavra, soberana e com seu poder demiúrgico, preservar a História dos povos e dos tempos idos. Por isso o narrador, é “escriba” e o seu Chefe direto é o “Destino” – condição que favorece caminhar à vontade, por exemplo, pela “longa duração”, pela oralidade, com lendas como a bíblica, de Jonas e a baleia; a de Tristão e Isolda; a da tradição dos épicos greco-romanos. Ou perambular, ainda, por uma “memória” propriamente literária, já que há nesta obra sinais evidentes do Cem anos de solidão, de García Márquez, ou de A jangada de pedra, de Saramago. O autor, ao fazer da “memória” pessoal repositório da “memória” coletiva, é instrumento de um passado tornado presente.


