MEMÓRIAS DA SAUNA FINLANDESA
“O cinismo toma conta de tudo. De tudo, entendeu? Ele sempre esteve lá: junto com o melhor que você julgava ter carregado a vida inteira para baixo e para cima. Você que passou a vida se achando um cara legal.”
Memórias da sauna finlandesa, novo livro de Marcelo Mirisola, pretende ser uma obra de reconstituição de vida. Mas, já na dedicatória, o autor alerta que essas suas memórias não são lá muito confiáveis. Contudo, há tantos pequenos traços de verdade, que parece não existir um grama de mentira sequer em todo o livro: o restaurante Planeta’s, viagens ao Boqueirão, o sanduíche de pernil com abacaxi do Cervantes e até o próprio e-mail do autor: [email protected].
E se existir mesmo uma Nelci, garota de calcanhar sujo, e seu poema dedicado à M. M., “Canjica”? E onde se construiu então a Maria Esther Casa das Pedras Von Kelsen? Na realidade, Mirisola deixa muito clara a sua intenção de nos ludibriar: “Ora, sou um ‘écrivain’!, assim é que engano os recepcionistas dos hotéis” – exatamente por meio dessa farsa de verdade, abre-se espaço para mostrar o ridículo do cotidiano, eivado de petshops e pitboys, DVDs da Hilda Furacão e roupões felpudos do Stroeter. E o ridículo aqui parece conviver conosco sem nenhuma tragédia.
Quando algum diálogo começa a soar trágico ou lírico, o autor, sem dó ou piedade, insere uma fritada de rabanadas, a Coca-Cola de dois litros, o sexo no Parque Eletrônico Futurama em 1972, enfim, o cinismo toma conta de tudo para deixar bem claro que essas memórias são um acerto de contas com o leitor, consigo mesmo e com o mundo. Porque não é possível passar a vida se achando um cara legal.
O formato da edição permite que o livro seja confortavelmente carregado, e será ótima companhia para leituras em quiosques de praia, cafés de livrarias e casas de campo – onde o leitor poderá experimentar, entre risadinhas, às vezes nervosas, o sabor desse cinismo difícil que toma conta de tudo. E, finalmente, descobrir que raios de sauna finlandesa é essa.


