Modismo e realidade no mundo do vinho

ão há a menor dúvida de que existe um modismo no tema dos vinhos “naturebas” (orgânicos, biodinâmicos e naturais), modismo que começou com uma juventude interessada em saúde, em mercados que cresciam e crescem mais que os não naturebas, em críticos que procuram o verdadeiro terroir, e tudo isso atraiu a “indústria do vinho”, aquelas empresas enormes que tratam a bebida como produto, e não como cultura.

Surgiram os trabalhos de redução da emissão de carbono, as garrafas mais leves com o mesmo objetivo, o tratamento de águas, a preocupação com o entorno e os empregados, a procura por redução de uso de químicos etc. Essas iniciativas turbinaram o modismo, pois passaram a ser divulgadas por quem tem dinheiro no negócio do vinho.

Sempre me lembro do produtor José Alberto Zuccardi, um grande produtor, diga-se, argentino e muito gente fina, que um dia, ao me responder quanto era rentável seu negócio, me disse: “Didú, o vinho não é um negócio, é uma maneira de viver…”. Perfeito.

Quem fizer conta direito irá descobrir que só há dois tipos de produtores de vinho que ganham dinheiro: os produtores de vinho de volume, grandes quantidades, grande distribuição, força de marca. Caso de Gallo, Great Wall, Hardy’s, Concha y Toro, por exemplo. O outro é o produtor que conseguiu agregar valor à sua marca, seja pela alta qualidade e baixa oferta (Romanée-Conti), por aproveitar adequadamente um momento (Bad Boy) ou por insistência em preservar sua cultura e extrema dedicação à qualidade (Viña Tondonia), apenas para citar um exemplo de cada tipo, pois há inúmeros.

O vinho, para mim, é cultura antes de tudo. E esse produtor de vinho precisa de mim e de você, consumidores que deem valor ao que ele faz, pois a indústria não está nem aí com cultura, mas com vendas. Ela tem um poder incontestável, com o qual o produtor não tem como brigar. Os governos, estamos cansados de saber, sucumbem aos lobbies das indústrias e, portanto, nunca governam para proteger o pequeno.

Hoje, esse pequeno produtor que quer preservar os hábitos culturais de ancestrais e produzir vinho puro, que não use produtos químicos, está sofrendo em toda parte, na Europa e na América, pois está sendo forçado às práticas de assepsia que matam as leveduras locais e induzem ao uso de produtos sintéticos e químicos.

Três sugestões de vinhos portugueses de produtores autênticos: Quinta da Pellada e Niepoort (à venda na Mistral), e Quinta do Infantado (à venda na Premium Wines).

Didú Russo é Ex-publicitário entediado com o setor, larguei tudo na década de 1990 para viver de vinho. Degustar, escrever e falar de vinhos virou minha maneira de viver do que antes era apenas um hobby. Ganha-se pouco, degusta-se muito, do bom e do ruim