MORTES VITORIANAS

A obra Mortes vitorianas, de Juliana Schmitt, é um ensaio sobre corpos, luto e vestuário, organizado em três eixos: morte de si, luto e morte do outro. Na primeira parte, a autora apresenta o período vitoriano e o início do desenvolvimento do mundo industrial. Sai de cena a morte pública, social e domada, e entra a morte selvagem, um tempo de silêncio e de minimização da dor. Domam-se pulsões naturais, busca-se controle de sentimentos, ambivalência entre esconder e exibir. A aristocracia prima pelo exagero e ostentação, e a burguesia pela virtude, trabalho e autocontrole. Burgueses racionalizam desejos, domesticam instintos, reprimem sexualidade. Valorizam a vida regrada, sem sustos, com discrição e seriedade.
No segundo capítulo, é apresentada a questão das indumentárias da era vitoriana, mesclando cores e tipos de roupa. O preto é a cor do luto por excelência, por lembrar escuridão, repouso, melancolia, medo e contenção. Sacerdotes usam preto, cor associada a frugalidade, distinção, sobriedade e austeridade. A moda vitoriana valoriza o corpo feminino, com suas curvas acentuadas por corpetes e espartilhos. As roupas masculinas são confortáveis, os acessórios enfatizam a masculinidade. O preto é prático, universal e permite a padronização, simbolizando autocontrole, uma roupa quase melancólica.
O terceiro capítulo expõe o tema da morte do outro, seu caráter dramático e de ruptura. Os mortos tornam-se objeto de culto, lembrando a continuidade da vida. O antes da morte se prolonga pelo envelhecimento, com tempo para o balanço da vida, a distribuição dos bens e conselhos para os mais novos, arrependimentos e pedidos de perdão. A morte súbita é temida, por não permitir estes preparativos.
A leitura é agradável, conduzindo o leitor à época vitoriana com seus personagens, sentimentos e vestuário. A morte de si e do outro é trazida pelas imagens de um tempo que influenciou a história da morte no Ocidente. Uma vasta bibliografia nacional e estrangeira é apresentada, e cada capítulo é acompanhado de notas esclarecedoras que complementam o texto.