O Ano I da Revolução Russa
Leitura indispensável para compreender a Revolução Russa, este livro monumental foi escrito em Leningrado no final dos anos 20, baseado em lembranças e vivências pessoais, sem que o autor pudesse fazer pesquisas e acessar arquivos. Isolado por conta de suas posições independentes e de ligações com líderes bolcheviques em desgraça, Victor Kibaltchitch teve melhor sorte que eles e conseguiu voltar para a Bélgica em 1936, onde nascera em 1890, filho de um exilado russo perseguido pelo czarismo. O sobrenome Serge foi adotado durante a militância anarquista na Europa ocidental, que lhe custou alguns anos de prisão.
Serge chegou pela primeira vez à Rússia em 1917, entusiasmado pela Revolução, na qual se envolveu intensamente, ao lado dos bolcheviques. O livro é obra de um apaixonado, mas também obra de um analista rigoroso, além de relato fiel da perplexidade diante da barbárie plenamente configurada no stalinismo.
O posfácio, redigido trinta anos depois, é fundamental. Nele, o autor revê a trajetória da Revolução, não para negar e abjurar, e sim para analisar outra vez o que ocorreu. Mantém a convicção de que os bolcheviques não queriam de início o poder total e exclusivo e que foram empurrados a isso pelas circunstâncias históricas, tese polêmica uma vez que depuseram o Governo Provisório. Aliás, sua adesão ao ponto de vista leninista está no próprio título do livro: para ele, a Revolução Russa começou em outubro, e não em fevereiro, marco distintivo nas análises que superdimensionam a insurreição bolchevique em detrimento da ação espontânea dos trabalhadores na derrubada do czar em fevereiro. Nem por isso Serge oculta fatos que sustentam interpretações opostas, o que mantém a relevância e atualidade de seu livro.


