O DIABO E O FETICHISMO DA MERCADORIA NA AMÉRICA DO SUL

Qual a relação entre o diabo evocado por trabalhadores canavieiros e mineradores da Colômbia e da Bolívia e o fetichismo da mercadoria?
No clássico livro de Michael Taussig, escrito em 1970, ele investiga o significado social do diabo nas narrativas populares de mineradores e trabalhadores canavieiros da América do Sul, e indica que o diabo dos canaviais do Cauca e das minas bolivianas surgiu da reação à conquista, ao cristianismo e ao desenvolvimento capitalista. A figura do diabo enquanto fetichização do mal surge como imagem mediadora do conflito entre os modos pré-capitalistas e capitalistas de objetivar a condição humana. Foi o contexto de exploração e imposição cultural que forjou a representação do mal.
Para os mineradores da Colômbia, evocar o diabo representava a apropriação do inimigo dos seus inimigos, e o diabo “adorado” nas minas da Bolívia não era igual ao diabo do cristianismo, podendo ser tanto um aliado quanto um inimigo. A força da intrusão cultural colonizadora estimulou a cultura de resistência nas duas situações.
Ao dar voz às expressões singulares de resistência à devastadora onipotência da produção capitalista, Taussig indica que o “pacto” com o diabo era uma resposta (fetichizada) ao novo modo maligno e destrutivo de ordenar a vida econômica, sendo a mediação com o fetichismo da mercadoria. Para estes trabalhadores, o modo de produção capitalista ao qual deviam se submeter não era nem natural, nem bom, mas eles tinham consciência de que a forma de combater a sede do sistema por produção e sangue não era através de crenças e ritos. Por isso, aprenderam a conduzir a luta de classes de acordo com os padrões modernos, em vez de usar a feitiçaria. Entretanto, a magia e o ritual serviam para fortalecer “a consciência crítica de que uma realidade devastadoramente hostil” era imposta àqueles que trabalhavam nas minas e nos canaviais.