O homem que amava os cachorros

 

É como se fosse uma combinação entre a trilogia de Isaac Deutscher sobre Trotski e A segunda morte de Ramón Mercader, de Jorge Semprún, mas ambientada em Cuba. Um livro com três trilhas: a triste sina de Trotski no exílio; a trajetória de Ramón Mercader, de militante comunista na Guerra Civil Espanhola até sua preparação para “missões especiais” da KGB, em Moscou; e um personagem obscuro que conta sua história em terceira pessoa, em Havana, para um cubano desconcertado.

Três processos mitológicos – a Revolução Espanhola, a Revolução Russa e a Revolução Cubana – postos em questão em uma única novela, por Leonardo Padura. Como cubano contemporâneo, ele começou tardiamente a ouvir, sem preconceitos, falar de Trotski. No livro, corre atrás da bibliografia que vai sendo mencionada pelo depoente como se buscasse o elo perdido que explicaria as dificuldades que vive o país. A trilogia de Isaac Deutscher está entre os livros buscados em sebos e com amigos heterodoxos. O cenário dos encontros do personagem – o próprio Ramón Mercader – com um cubano – Iván, para Padura se representar – se dá na Praia de Santa Maria del Mar, ao lado de Havana, para a aclimatação tropical da trama.

A narrativa é lida sempre com tensão, sob a sombra do final trágico que se aproxima a cada página. Padura se vale de sua experiência na literatura policial, mas a obra é resultado de um impressionante levantamento de dados e fontes, que lhe permite combinar perfeitamente o rigor histórico com o clima semificcional. O livro, lançado primeiro por uma editora espanhola, foi um sucesso imediato, surpreendeu pela audácia e ganhou públicos distintos. Imediatamente se colocou a questão: uma obra iconoclasta como essa será publicada em Cuba? Foi e se constituiu no maior sucesso editorial da ilha, mostrando que dialoga com distintos públicos, emocionando a todos. Certamente um dos maiores lançamentos editoriais de 2013 no Brasil.