O incrível caso de Emmanuel Giboulot

 

No início deste ano aconteceu algo duplamente fantástico no mundo dos vinhos biodinâmicos. Um produtor foi condenado pelo Estado por se recusar a colocar veneno em seu vinhedo biodinâmico. Foi condenado, solto e obrigado a pagar uma multa, mas recorreu, processou o governo e ganhou.

O fato ocorreu em Beaune, na França, por conta de uma doença epidêmica bacteriana chamada flavescence dorée. O fitoplasma que circula na seiva leva a doença para toda a planta. A cigarra se alimenta da seiva, voa e espalha a doença. Como não se conhece a cura, a maneira de combate foi usar um pesticida para eliminar a cigarra.

Emmanuel Giboulot, produtor filiado à Renaissance des Appellations comandada por Nicolas Joly, desde 1985 se tornou biodinâmico e não tinha esse problema em seu vinhedo. Recusou-se a colocar o veneno. O governo de Beaune o acusou de cometer uma infração penal por não ter obedecido, por escolha ideológica, a uma ordem do governo.

Giboulot tinha a opção de usar um pesticida considerado orgânico, à base de crisântemos, mas sustentou que o produto é muito mais tóxico em relação ao pesticida industrial, que ataca apenas a cigarra: o pesticida natural não é seletivo e mata todos os insetos, explicou. A Renaissance des Appellations sustenta que é necessário entender o que essa cigarra está fazendo ali, para então colocá-la em equilíbrio com o sistema, e não eliminá-la.

O caso ganhou a imprensa e principalmente as redes sociais, onde foi gerado um manifesto em defesa de Giboulot. Mais de vinte organizações ecológicas mostraram solidariedade ao agricultor, que recebeu o apoio de mais de 130 mil pessoas em seu abaixo-assinado.

A flavescence dorée está na Borgonha desde 2011, vinda da América do Norte, e já tem uma presença muito grande no sul do país. A videira atingida e outras próximas precisam ser arrancadas para tentar acabar com o problema. Muitos viticultores estão em pânico.

A atitude de Giboulot foi considerada uma espécie de delito do Código Rural. Ele poderia ter recebido uma pena de até seis meses de prisão e pagar uma multa de 30 mil euros. A juíza, porém, deu ao agricultor uma pena quase simbólica. Ele foi condenado a pagar 500 euros, mas mesmo assim apelou da decisão processando o governo e ganhou. A postura de Giboulot foi um marco para a causa ecológica.

A França é o terceiro país do mundo a usar mais pesticidas, perdendo apenas para os Estados Unidos e o Japão. Os parreirais da França ocupam apenas 4% da área total empregada para a agricultura, mas são responsáveis por 20% de todos os pesticidas usados no país! O governo francês prometeu diminuir o uso de venenos pela metade até 2018.

Eu provei os vinhos de Giboulot, que são espetaculares e chegarão ao Brasil pela Importadora Metamorfosi nos próximos meses. A Metamorfosi é dos irmãos Orsi, que têm um vinhedo biodinâmico na Itália e participam ativamente da Renaissance des Appellations.

Os vinhos deles são deliciosos, mas não são vendidos ao consumidor final.Mas você os encontra na Enoteca Saint VinSaint, na Rua Professor Atílio Innocenti, 811, em São Paulo (SP). Não deixe de provar o Pignoletto, a R$ 140, que é de uma uva branca quase desconhecida por nós, a Pignoletto,vinho puro sem filtragem, com grande frescor e gastronômico. Saúde!

Didú Russo é Ex-publicitário entediado com o setor, larguei tudo na década de 1990 para viver de vinho. Degustar, escrever e falar de vinhos virou minha maneira de viver do que antes era apenas um hobby. Ganha-se pouco, degusta-se muito, do bom e do ruim