O PAI DOS BURROS: DICIONÁRIO DE LUGARES-COMUNS E FRASES FEITAS
Pode uma simples lista de termos e expressões ordinárias tirar o mofo da língua? Pode. O pai dos burros – título-clichê da divertida e útil contribuição de Humberto Werneck – não oferece definições nem sinônimos ou dados sobre a etimologia e o uso dos verbetes. Mas é uma lista cuja leitura aponta o que há de trivial e, às vezes invisível, na fala de hoje.
Não falta poesia a esta lista. Mal o livro abre, a primeira letra nos oferece: “De A a Z”; “Descascar o abacaxi”; “Profundamente abalado”; “Completo abandono”; “Abrir-se um abismo sob os pés”; “Uma nova abordagem”. Os verbetes reúnem obviedades tão queridas que seu mero eco à página já traz um sabor de antídoto. A reciclagem criativa dessas antipérolas ficará, é claro, a cargo do leitor. Porém, é curioso notar que entre as abonações mais numerosas estão aquelas clássicas ligadas às partes do corpo, como “De cabeça erguida”; “Coração de mãe não se engana”; “Mãos calejadas”; “Até de olhos fechados”; “Não larga do pé de alguém”. Muitas delas, como “Águas passadas não movem moinhos” e “O crime não compensa”, mostram que várias dessas expressões encontram correlato perfeito em outras línguas. É o caso de “Water under the bridge” e “Crime doesn’t pay”, respectivamente.
Outras, porém, são só nossas; e ao futebol devemos alguns dos melhores e mais originais chavões, afinal todos sabem que “O futebol é uma caixinha de surpresas”. O jogo entre o chiste e o alerta é feito com graça discreta. E a bela edição preparada por Paola Manica, com ilustrações saídas de um repertório visual também deliciosamente padrão, resultou em um livro inteligente e de corpo agradável, que cabe em um bolso mais frouxo e serve de remédio para a língua.
O “Amável leitor” vá ao O pai dos burros, que é “Livro que não se consegue largar”.


