O Velho Graça
Em matéria de literatura, Graciliano Ramos é uma “questão de ordem”. Explico: nas assembleias estudantis de minha época, essa era uma expressão recorrente quando se queria dizer que tudo deveria subitamente parar, porque algo se fazia imperioso. Uma questão específica, aparentemente neutra, daria alguma ordem ao caos.
É esse expediente que agora evoco para, antes de qualquer observação, caracterizar como uma “questão de ordem” a atitude de Dênis de Moraes ao fazer pausa em sua ativa produção de jornalista e professor universitário para deter-se novamente sobre a vida de um homem que ordena pela escrita o olhar de velhas e novas gerações sobre a realidade brasileira. Ramos é autor fundamental.

Quando Moraes se dispôs a escrever O velho Graça(lançado pela primeira vez em 1992), estava exercendo aquilo que o filósofo Richard Rorty decretou como função primeira do jornalista e também do literato: mostrar aos mais novos possibilidades de alteração do status quo− a função do exemplo, tal como salientado por Aristóteles em sua Retórica, igualmente preocupado com o presente e o futuro de seu mundo.
A função de um biógrafo competente implica a difícil tarefa de trazer à tona a narrativa viva de uma existência. Discorrer sobre ela, tentando dar-lhe fio condutor e coerência, não é nada simples. É enorme o risco de fracasso, caso não ocorra a coerência do casamento perfeito entre biografado e biógrafo.
No caso específico de Ramos, a coerência do biógrafo tem natureza política, não aquela meramente vinculada às siglas partidárias, mas outra, cada vez mais rara, relativa à potência existencial que os une. Exatamente por ser moldado com o mesmo material do inconformismo e da não resignação, foi possível ao olhar atento e afetivo de Moraes captar a vida do escritor com lentes de precisão.
Por um lado, dar a conhecer, com maior riqueza de detalhes, a vida e obra desse magistral escritor alagoano é um presente ofertado ao público por essa nova edição. Por outro, é, sobretudo, um alento que revigora a todos que possam ter passado pela leitura de Ramos com o açodamento próprio dos exames de vestibular. O velho Graçaé mesmo uma grande questão de ordem.

