Órfãos do Eldorado

A novela ambienta sua ação na região norte do país, insistentemente recorrente na ficção do escritor. Não se trata, porém, de texto regionalista. Constrói-se, antes, um espaço urbano degradado, restos de antigo fausto, espelhando a ruína de personagens à deriva. Servem de epígrafe e chave de leitura os versos de A cidade, de Kaváfis (Não encontrarás novas terras, nem outros mares/A cidade irá contigo), que reverberam diferentes vozes que se alternam, se misturam, se contrapõem sem harmonia possível: a afirmação do direito humano à cidade; a busca utópica da Eldorado mítica; a memória individual do escritor; os dramas sociais e familiares; o narrador que espera “uma vida” pela mulher amada.
    O relato apresentado é “estória contada” pelo narrador a um “viajante”. Informa-nos Hatoum, numa espécie de posfácio, que há nele a busca dos resíduos da memória da infância, das recordações de pessoa que teria vivido as experiências do protagonista, mediadas estas encenações, burlas habilmente construídas pelo texto refinadíssimo do autor. Se este se vale da oralidade e do discurso mítico, o universo literário, o da palavra escrita, é também fio esgarçado da trama: a cética voz de Machado de Assis, audível na sutileza oblíqua que ambos os escritores dão a conteúdos históricos e à denúncia social; a presença de Guimarães Rosa, no processo estrutural da novela; a voz de Mario de Andrade na recuperação de um escritor que, encostado à árvore, ouve a “fala impura” que dará origem ao relato, como no epílogo de Macunaíma. Diferentemente, porém, do projeto até certo ponto unificador do espaço nacional almejado pelo modernista, na novela de Hatoum o resultado é mesmo a ruína, a sempre adiada esperança de resgate da nação, a impossibilidade de conclusão da própria narrativa. Agora minha memória anda apagada, sem força…
    Põe em cena, assim, com a simetria finamente procurada, leitores, ouvintes, narrador e escritor, reafirmando, como em suas outras obras, a função ética da literatura e do autor como agenciador de vozes e visões de mundo.