PAPÉIS INESPERADOS
Há de tudo um pouco nestes Papéis inesperados de Julio Cortázar. De contos inéditos a capítulos suprimidos de livros, de ensaios e poemas a entrevistas inventadas. São textos escritos ao longo da vida do escritor argentino e que só foram reunidos em livro 25 anos após sua morte.
Esse tempo de espera é que justifica o inesperado do título, já que o todo não se diferencia muito de outros volumes do gênero. Para quem quer conhecer Cortázar, há uma gama variada de textos de vários momentos de sua produção. Para os mais familiarizados, é satisfação garantida o deleite de passear novamente pela engenhosidade e o humor de sua escrita.
A divisão do livro em seções ajuda a dar coerência a esses papéis encontrados em uma cômoda de sua casa: uma seção para a prosa, outra para os escritos de circunstância e uma última para textos de mais difícil classificação.
Não faltam também as questões mais esperadas: a defesa da revolução cubana, o incômodo com a repercussão de sua naturalização francesa e seu engajamento contra as ditaduras desde o exterior, ou ainda as dores e as delícias em torno do “boom” da literatura latino-americana, que o colocava no centro de um campo literário internacional que se consolidava.
Se algumas questões envelheceram, o empenho de Cortázar para se manter íntegro em meio às circunstâncias é notável, assim como seu esforço para manter vivo seu encanto com as relações humanas.
Figura-se por todo o livro o grande escritor que não se furta às circunstâncias e nem se deixa absorver por elas, que adere e se distancia, que abstrai para poder pensar e personifica para tornar o seu pensamento produtivo, que entra no jogo da literatura e que não perde de vista a peculiaridade dos rostos. Papéis inesperados tem o mérito de deixar à mostra esse processo de busca, com seus altos e baixos, seus achados e seus riscos, pois, nas palavras de Cortázar, “o risco está nisso, em que se pode partir de qualquer coisa mas depois é preciso chegar, não se sabe bem a que, mas chegar”.


