Persépolis

Em 1971, o xá do Irã, Reza Pahlevi, reuniu a crème de la crème da elite internacional na comemoração do 2500o aniversário do Império Persa. Cem milhões de dólares foram gastos na festa. Em tendas refrigeradas, montadas nas imediações das ruínas de Persépolis, os convidados degustaram peito de pavão preparado pelos chefs
do Maxim’s de Paris, servido em porcelanas de Limoges e acompanhado do melhor champagne em cristal Bacarat. As revistas de variedades da época se deliciaram com esse espetáculo de ostentação e mau gosto, que incluiu desfiles de bigas, inspiradas nos carros de combate de Ciro, o Grande. Filho de um usurpador vulgar, o xá se considerava descendente do fundador do império. Dócil aos interesses anglo-americanos, zeloso de seus privilégios de casta, mantinha a população na miséria e cem mil opositores políticos na cadeia.
    Por isso, quando explodiu a revolução iraniana no final dos anos 1970, nenhum analista honesto deixou de apoiá-la. As forças revolucionárias compunham um leque heterogêneo, que ia dos marxistas-leninistas aos religiosos tradicionalistas, passando por políticos de bom senso. O desfecho todos conhecem. Derrubado o xá, o novo regime promoveu sucessivos expurgos em suas fileiras e evoluiu para uma república teocrática que tem no chador seu símbolo mais característico. Como todos os fundamentalistas de todos os credos, o atual grupo dirigente confunde as verdades perenes da religião com as formas históricas, e portanto necessariamente transitórias, das quais ele se reveste – o que resulta em um conservadorismo onipresente e asfixiante. Quem o diz, com outras palavras, é o ex-presidente Muhammad Khatami. E ele não pode ser acusado de desrespeito à tradição. Politicamente reformista, Khatami é, no entanto, xiita devoto, clérigo e filho de um dos mais ilustres aiatolás do país.
    Esta história, que podia resultar em pesada lamúria, transformou-se em uma crônica inteligente, arguta e bem-humorada no cartum de Marjane Satrapi. Criança, ela viveu os últimos dias da monarquia e o advento da revolução. Adolescente, teve que se auto-exilar na Europa para respirar uma atmosfera menos opressiva. Um pouco na linha de Julie Gavras em A culpa é do Fidel, Marjane (cuja obra, aliás, também virou cinema) contrapõe ao fundo histórico sua própria história pessoal, dissecada sem auto-indulgência, mas com aquela amorosidade sem a qual não vale a pena viver.