PONTO DE CULTURA: O BRASIL DE BAIXO PARA CIMA - Le Monde Diplomatique

PONTO DE CULTURA: O BRASIL DE BAIXO PARA CIMA

3 de janeiro de 2010
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Quando o ministro Gil, em seu discurso de posse, afirmou que a cultura precisava mudar e que era necessário massagear os pontos vitais do país, operando um verdadeiro Do-in antropológico, sabia que essa não seria uma tarefa fácil, mas não imaginava a riqueza conceitual, teórica, de políticas públicas e de novas poéticas que o processo desencadearia. O livro de Célio Turino, secretário da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura, traz contribuição decisiva para o entendimento definitivo da proposta dos Pontos de Cultura, e mostra que é possível fazer cultura “sem dirigismo, centralismos ou caminho único”. No entanto, Ponto de Cultura é mais que uma política pública em processo de construção: é teoria política, movimento sociocultural, gestão compartilhada, trabalho em rede. São mais de 2 mil Pontos, com milhares de pessoas envolvidas em todo o território nacional, em grupos, redes, coletivos, organizações, movimentos já existentes – com presença das culturas ancestrais, protagonismo jovem, de novas manifestações estéticas, movimentos de caráter identitário de mulheres e homossexuais, movimentos associativos e reivindicatórios, arte erudita, pesquisa em linguagens, cultura de paz. São índios fazendo filme, jovens que fazem arte, surdos no teatro. O livro delineia, com riqueza de exemplos, conceitos, poemas, depoimentos, pesquisas e dados históricos, uma poética de um Brasil “des-escondido” e “des-silenciado”, propondo um cenário do bem comum como valor da civilização.
Reflexão sociológica, história, crônica, autobiografia, literatura, indagação existencial? “Deixei meu pensamento entrar no deserto, no lugar em que só o essencial faz sentido”, diz Célio. O poeta-gestor fala também em compaixão na política. O livro é um mosaico de temas e imagens. Antes de tudo, emotivo, plenamente humano, vivo.
A conclusão definitiva é aquela revelada em sua autoentrevista, quando afirma: “Eu sou um Ponto de Cultura”. Como poetiza Mário Quintana: “Tudo  o que eu toco se transforma em mim”. Célio é criador e criatura. E tudo isso já é Brasil.
Areté!*

*Em Tupi, significa dia festivo; em grego, virtude, excelência.

 



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