Rasif – Mar que arrebenta

“Olha lá vai passando a procissão, se arrastando feito cobra pelo chão…”
Era essa a canção que soava nos meus ouvidos enquanto lia o novo livro de contos de Marcelino Freire. É vasta a procissão de personagens que o autor traz pela mão, se arrastando feito cobra de Sertânia até São Paulo, onde vive há mais de uma década. Uma trupe em andrajos que assusta e emociona com seu clamor, seus amores perdidos, fracassados. Velhas praguejando contra a solidariedade fingida dos nossos abraços da paz; crianças violentadas pela nossa moral desmilingüida; meninos que sonham com um revólver pra matar Papai Noel; índios que invadem nossas praças para cobrar os corpos dos irmãos que incendiamos; homossexuais, travestis, artistas em fim de carreira que metem um revólver na boca de cena. “Se não houver sangue. Meu filho. Não é amor.” Até homem-bomba tem dessa vez. O amor na prosa de Marcelino é sempre o que sobra de uma explosão. Um ferro em brasa, retorcido. “O amor é uma mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe.” Mesmo assim, podemos dizer que a prosa de Marcelino é dura, mas doce, feito rapadura. E sempre nos faz rir em algum pedaço da história.
Inovador na linguagem, dono de uma voz personalíssima, Marcelino escreve como quem respira com aflição e urgência. Ele ousa no formalismo sem nunca abrir mão da narrativa. Um tremendo contador de histórias, é isso que ele é. Histórias do menino nordestino que queria ser poeta. Fala pernambucana com sotaque paulistano, nova-iorquino, palestino, árabe, tupi-guarani. Frevo e rock n’roll no mesmo samba, da pesada. Pranto e muita gargalhada.
Rasif, seu quarto livro de contos, mergulha ainda mais fundo nas raízes pernambucanas e coloca Marcelino Freire como estrela de primeira grandeza no céu da literatura contemporânea. Como se não bastasse, as lindas gravuras de Manu Maltez ressaltam ainda mais a beleza que jaz escondida em tão agreste paisagem. E lá vamos nós nas asas do carcará.