Retroscópio
Quando você nasce Neltair, pode fazer duas coisas: vai ser contador ou muda de nome. Foi assim que, num segundo parto, nasceu Santiago, que adotou o nome de sua cidade natal, Santiago do Boqueirão.
Essa escolha já dá uma pista de como é o artista, um gaúcho apaixonado pelo seu rincão, pelas terras, costumes e hábitos riograndenses. Sotaque carregado, sempre alguns decibéis acima, Santiago é uma metralhadora, soltando frases, piadas e aqueles malditos trocadilhos que ele tanto adora.
Apaixonado pelo Rio Grande do Sul, o é também pelo humor gráfico, onde não deixa pedra sobre pedra com seu trabalho crítico e mordaz. No recém-lançado livro Retroscópio, Santiago faz um apanhado de 40 anos da história recente do país e de fatos além-mar, numa coletânea de 171 cartuns e charges que abrangem a ida do homem à lua, as infinitas crises econômicas brasileiras, Collor, FHC, torres gêmeas, Obama, transgênicos, vaca louca, Lula etc. Personagens que ao longo desse tempo se misturaram com sua própria trajetória profissional de jornalista e cronista full-time. Há também seus personagens dos pampas, sempre com observações que parecem ingênuas, mas que trazem no fundo aquele olhar de quem não se conforma e quer mudar o mundo, nem que seja a toque de nanquim.
É o Santiago falando através deles. E o desenho limpo, traço fino, leva o recado, seja numa cena solitária, seja naquelas onde centenas de personagens se amontoam para compor uma sinfonia de pequenos acontecimentos e de gente inconformada, reclamando, protestando, correndo atrás de um cachorro que se soltou.
Premiado em salões nacionais e internacionais, Santiago reclama, com razão, do pouco espaço que a imprensa dispensa à charge e ao humor gráfico. Perde ela e perdem os leitores. Se eu fosse editor, ficaria esperto. Esse menino ainda vai longe!


