Rio das Flores
Forster, romancista inglês, insistia: o romance conta uma estória. Sousa Tavares, no entanto, conta uma bem construída estória dentro de um bem construído quadro histórico. Ponto positivo fundamental. Romancistas da segunda metade do século XX enredaram tanto os romances em experimentalismos técnico-narrativos que, no mais das vezes, os tornaram enfadonhos e complicados aos olhos do grande público, atraentes só para rarefeitos grupos em busca de temas para teses e discussões acadêmicas. Rio das Flores, ao contrário, devolve a todos o prazer de ler, reata com a tradição de uma narrativa que avança e não fica a dar voltas sobre si como o cão a querer abocanhar o rabo. Saudemos, pois, o resgate do gênero: o romance saiu da UTI vivo e saudável!
“Este não é um livro de história, mas sim um romance histórico”, diz o autor. Outra positividade fundamental: não vemos nele a abolição de limites entre história e ficção que as últimas décadas fartaram-se de praticar. Houve historiadores que afirmaram uma geléia geral entre ficção e história: para eles, a história não seria mais do que uma ficção ou mesmo uma espécie de poema… Tavares não. Situa seu romance entre os anos de 1900 e 1945 e cria com poderosa expressividade as personagens alentejanas da família Ribera Flores. Simultaneamente, vai delineando com clareza e precisão sufocantes o avanço dos fascismos e totalitarismos na Europa até desembocarem na ditadura salazarista, na guerra civil espanhola, na Segunda Guerra Mundial e, aqui no Brasil, na ditadura fascista de Getúlio Vargas.
A personagem Diogo Ribera Flores, na sua incessante busca da liberdade, vem ter ao Brasil. Uma sólida fortuna permite-lhe realizar sonhos e caprichos. Encontra-a? Seria ele um utópico? Um burguês acomodado, no dizer do irmão? Não subtraiamos ao leitor o prazer de respondê-las. Acrescento apenas que Tavares não pareceu alheio à visão paradisíaca desta Terra, apesar dos pesares. E mais: incluir o Brasil na trama foi um enorme achado!


