Sete ensaios de interpretação da realidade peruana
Há 80 anos era publicada uma das mais importantes obras do marxismo latino-americano: os Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. No livro, José Carlos Mariátegui faz uso do materialismo histórico como uma importante ferramenta para entender a formação social peruana.
Tal atitude contrasta com a postura que era então dominante no marxismo na América Latina. Fruto das chamadas teses da Internacional Comunista (IC) sobre os “países coloniais, semicoloniais e dependentes”, esse marxismo como que se reduzia a um conjunto de fórmulas com pretenso valor universal. Basicamente, defendia-se que se deveria promover no mundo não-industrial uma revolução burguesa, que, a exemplo do que teria ocorrido na Europa, poria fim aos supostos resíduos feudais, promovendo o desenvolvimento capitalista, e abriria caminho para o socialismo.
Mariátegui mostra, em contraste, que a questão nacional no Peru se confunde com o problema indígena. A partir daí, indica, em bases marxistas, que a questão indígena não é um problema administrativo, jurídico, étnico, moral, educacional ou eclesiástico, que deveria ser resolvido com base em iniciativas nessas áreas, mas uma questão econômica e social. Melhor, a exclusão do índio da vida nacional só acabaria quando se mexesse na estrutura fundiária, pondo fim ao domínio quase absoluto dos grandes proprietários rurais.
É evidente que teses como essas não poderiam ser bem recebidas no ambiente stalinista da época. Ilustrativo disso é a reação indignada, em 1929, do chefe do secretariado sul-americano da IC, Vittorio Clodovilla, ao uso da expressão “realidade peruana” num informe apresentado pela delegação peruana na I Conferência Comunista Latino-Americana. Mas, se para Clodovilla tais especificidades não poderiam existir, a verdadeira explosão da questão indígena a que temos assistido nos países andinos é a prova de que Mariátegui tinha razão em prestar atenção às particularidades nacionais.


