UM HOMEM BURRO MORREU
A espeleologia é fascinante como atividade científica e recreativa. É por esse viés que os contos de Um homem burro morreuagarram o leitor. Os mitos da profundidade jogados na narrativa mexem com o estado da consciência e arrancam as vestes desse receptor sempre comportado no início de qualquer leitura. Daí rubores e constrangimentos. “Caetano Veloso pensa em coisas boas enquanto defeca. Após defecar, limpa a sua bunda. Ele olha para as suas fezes.” Se o leitor se recuperar desse tapa na cara logo nas primeiras páginas, conseguirá percorrer uma obra provocativa de alta qualidade.
Como o Caetano Veloso do primeiro conto, surge Jesus Cristo “usando um cano de ferro para acertar a cabeça de Hitler”, um Jesus Cristo vulgar e vingativo, que deixaria encabulado o mais ignóbil estuprador. É evidente que a exagerada e chocante demolição de mitos é um alerta para o leitor desavisado: choco e afronto para que você acorde, leitor obtuso, que só vê aparências!

É assim que se pode ler a encenação teatral no conto “Ploin e Mânima – Drama em 5 atos”, em que dois personagens dialogam para nada dizer ou julgar. Mas julgam, sim, julgam silentes ou com palavras anódinas. Um trecho do conto lembra um dos diálogos de Macabéa com Olímpico em A hora da estrela, de Clarice Lispector, e o quinto ato remete curiosamente, com a mesma simbologia numérica, para o capítulo 55 de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, no qual o leitor tem apenas travessões e reticências para fazer a “leitura” da fala dos personagens. As duas referências literárias estão aí para lembrar que o livro traz o facho aceso para explorar, junto com os mestres, as profundezas das cavernas ancestrais da excelência da cultura brasileira.
A obra é isto, tropismos íntimos que recusam ornamentos e retóricas conciliantes. Pura arquitetura literária. Cabe ao leitor não morrer apertando o botão da torradeira, como o homem burro do conto que dá título ao livro.
Godofredo de Oliveira Neto é Godofredo de Oliveira Neto é escritor, autor dos romances A ficcionista e Menino oculto, entre outros, e professor da Faculdade de Letras da UFRJ.scritor, autor dos romances A ficcionista e Menino oculto, entre outros, e professor da Faculdade de Letras da UFRJ.

