VIVER EM RISCO
A relevância do tema proposto pelo livro Viver em risco se manifesta por evidências dramáticas, como os efeitos das enchentes e desmoronamentos que vitimaram os moradores de assentamentos precários das metrópoles de São Paulo e Rio de Janeiro na estação chuvosa de 2009/10. Num registro bem diverso do apelo midiático à tragédia, o trabalho de pesquisa e análise desenvolvido por Lúcio Kowarick mergulha no cotidiano desses bairros populares, revelando causas de longa duração e processos mais recentes que especificam a situação de vulnerabilidade socioeconômica e civil à qual se acha submetido o imenso contingente de pobres urbanos do país.
A primeira parte do livro, na forma de ensaio, apresenta matrizes teóricas e político-ideológicas que referenciam as ações dirigidas à questão da vulnerabilidade social nas sociedades francesa, norte-americana e brasileira, destacando, no nosso caso, os discursos que naturalizam a pobreza e a desigualdade, bem como os mecanismos de neutralização dos conflitos pelo constrangimento e discriminação.
A segunda parte trata da moradia e da violência no contexto das transformações socioeconômicas e urbanas que ocorreram no país a partir de 1980. Com base em indicadores recentes e pesquisa etnográfica que coordenou entre 2001 e 2003, o autor atualiza sua notável obra de análise dos processos espoliativos que engendram e reproduzem as três principais formas de habitação popular na cidade de São Paulo: cortiços, loteamentos periféricos e favelas. Da fala dos moradores surge uma qualificação mais sensível e exata dessas três modalidades e o novo sentido do “viver em risco”: o medo da violência, que condiciona decisões e rotinas, desafiando o andamento das inadiáveis obras públicas de urbanização e também as possibilidades de organização e luta da população por direitos básicos de cidadania.
Esclarecedor, instigante e magistral, Viver em risco é leitura obrigatória para todos que vivem e trabalham as questões urbanas contemporâneas.


