YUXIN
A primeira coisa que chama a atenção em Yuxin, novo romance de Ana Miranda, é que o livro vem acompanhado de um disco digital com leituras e cantos.
Chama a atenção, mas talvez não surpreenda a quem conheça a trajetória literária da escritora. Desde que publicou Boca do inferno, em 1989, romance que contextualiza Gregório de Matos e seus poemas no século XVII, Ana Miranda costuma encontrar motivação para escrever em outros autores, textos literários e históricos.
É o caso de A última quimera (1995, a partir de Augusto dos Anjos), Clarice (1996, a partir de Clarice Lispector), Dias e Dias (2002, a partir de Gonçalves Dias), ou O retrato do rei (1991, em torno da Guerra dos Emboabas) e Desmundo (1996, em torno do episódio das órfãs da rainha) – sendo que este último livro constitui uma interessante reinvenção da língua quinhentista.
Ana Miranda, portanto, é uma reinventora de linguagens; e é assim que Yuxin deve ser compreendido. O romance parte, fundamentalmente, da leitura do livro de Capistrano de Abreu, que trata da língua dos caxinauás e reproduz também depoimentos de índios.
A narradora, Yarina (e também Yuxin), é uma espécie de Penélope, que executa um complexo bordado inspirado na pele da jiboia enquanto espera o retorno do marido, Xumani, desaparecido depois de ter matado o primeiro noivo da mulher, que obteve em troca de um cão de caça.
É a partir desse núcleo que o relato se constrói. Mas o que menos importa no romance é o enredo. O livro foi escrito para ser lido em voz alta: os capítulos, que têm praticamente a mesma extensão, marcam o compasso do texto, que é repleto de palavras portuguesas de origem indígena tomadas de diversas línguas brasileiras, evocando cheiros, sons e imagens, num mergulho sinestésico nas matas amazônicas.
Acentua a musicalidade do livro a recriação da sintaxe oral indígena e o emprego ritmado de inúmeras onomatopeias, todas tiradas de depoimentos de índios.
Yuxin é uma experiência radical na pesquisa de sonoridades brasileiras. E, por serem oriundas de línguas e culturas indígenas, merecem toda a distinção.


