CINEMA

Nós, Daniel Blake

Contém spoiler: Eu, Daniel Blake, dirigido por Ken Loach e escrito por Paul Laverty, tem entre seus méritos não apenas dar visibilidade a situações de sofrimento de uma classe trabalhadora, mas também o de nos deixar ver que essa classe só existe atualmente em sentido econômico, não sociológico

por: Leo Vinicius
8 de fevereiro de 2017

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Que um filme na primeira pessoa do singular esteja sendo aclamado pelas almas coletivistas de esquerda e suscite identificação, por si só já é indício da façanha de Eu, Daniel Blake. O filme britânico, dirigido por Ken Loach e escrito por Paul Laverty, tem entre seus méritos não apenas dar visibilidade a situações de sofrimento de uma classe trabalhadora, mas também o de nos deixar ver que essa classe só existe atualmente em sentido econômico, não sociológico.

Aos nossos confusos esquerdistas nacionalistas que gozam vendo ataques da Al-Qaeda ou do Estado Islâmico na Europa, Eu, Daniel Blake é bastante didático. Talvez assistindo à película se deem conta de que não é para se comemorar ataques terroristas à população civil do chamado Primeiro Mundo. Há trabalhadores na Europa, como aqui, na China, nos EUA… Daniel Blake e Katie, os personagens principais, são pontos de identificação de uma classe trabalhadora para além das fronteiras. Mérito também de Laverty e Loach darem visibilidade e consciência dessa condição comum globalizada dos trabalhadores, algo que passa longe das cartilhas de várias organizações de esquerda.

Um dos claros pontos de identificação além-fronteiras é o sentimento de humilhação explicitado por Daniel Blake na sua saga, enfrentando a perícia e a burocracia para tentar conseguir o equivalente ao nosso auxílio-doença. Humilhação essa que é lugar-comum entre os trabalhadores brasileiros que tem que se afastar do trabalho por acidente ou doença (escreva num mecanismo de busca as palavras “humilhação” e “INSS”, ou procure pesquisas acadêmicas sobre o tema).

A vida que acompanhamos de Daniel se dá fora do trabalho, assim como a da desempregada Katie, jovem mãe de dois filhos. O mundo retratado desses trabalhadores, paradoxalmente, é o do não-trabalho, da precarização; um mundo de luta pela sobrevivência material em que já não aparecem sindicatos ou organização coletiva – não há classe trabalhadora no sentido sociológico. E se nos identificamos mais com Eu, Daniel Blake, do que com Pão e Rosas ou Terra e Liberdade (ambos também de Ken Loach), talvez seja porque o primeiro apresente a decomposição coletiva e de classe que dá o tom da nossa realidade.

Mas Daniel, carpinteiro, ainda é o antigo operário com ofício, de saber-fazer adquirido em anos de experiência. A mudança histórica nas relações de trabalho é retratada no filme através do convívio do antigo operário Daniel, com o jovem China, seu vizinho de porta. China trabalha num depósito e vai ao trabalho nos dias e horários que seu patrão demanda, numa condição de extrema flexibilidade da jornada de trabalho sob controle do patrão. A fuga dessa subordinação é buscada através do “empreendedorismo” no comércio informal, com a venda por quase metade do preço de tênis de marca produzidos na Ásia, os quais são expropriados da fábrica por um jovem operário que os envia ao vizinho de Daniel. Aqui aparece a cadeia produtiva transnacional, e certamente o desejo dos autores de que os operários de cada lado do mundo entrem em contato e percebam o que possuem em comum. Mas essa comunicação entre o vizinho de Daniel Blake, China, e o operário chinês que produz os tênis se dá a partir de uma identificação de consumo, ou de cultura de massa: o gosto pelo futebol profissional. E eles se comunicam não para organizar algum tipo de organização coletiva contra a exploração, mas para organizarem seu “empreendimento” ilegal de modo a melhorarem suas condições de vida. Novamente, aqui, só há classe trabalhadora no sentido econômico, pela posição deles nas relações de produção. Mas não há classe no sentido sociológico: não há luta explícita, ou organização de classe. A “viração” se coloca como alternativa concreta, e não a luta como classe.

Os episódios de solidariedade entre trabalhadores permeia toda a história. Aliás, o encontro de Daniel e Katie e a relação que os dois passam a ter são baseados na solidariedade. Da funcionária do governo que sai do protocolo e coloca sua pele em risco para tentar ajudar Daniel a superar a burocracia, passando pela ajuda mútua com o vizinho China, ao gerente do supermercado que deixa Katie levar os produtos que havia furtado, o filme deixa claro que são as microssolidariedades do dia a dia que tornam a vida de Daniel e de Katie mais suportáveis, sendo até mesmo essenciais para se manterem. Novamente, são solidariedades individuais espontâneas, não coletivas, não organizadas, não instituídas – à exceção da organização para entrega de cestas básicas, com sentido assistencialista. Para a realidade brasileira fica ausente um ator importante nesse cenário de precarização da vida e das relações de trabalho. Uma versão brasileira de Eu, Daniel Blake certamente teria que ter uma Igreja neopentecostal. Ali, dando o suporte, mantendo redes de solidariedade e trazendo palavras motivacionais para vencer na vida, quando as solidariedades de classe através das organizações de esquerda são coisa do passado. A palavra motivacional e de fortalecimento do ego, para Katie, vinha de Daniel. O cartão que o segurança do supermercado que deteve Katie entrega a ela na saída, bem que poderia ser o de uma Igreja neopentecostal em vez de ser o de um contato de oportunidade de trabalho como profissional do sexo.

Ao descobrir esse novo trabalho de Katie, Daniel a surpreende indo até o local. Katie pede a ele que pare de demonstrar afeto por ela, que se afaste, que pare de dar todo carinho que tem dado a ela e a seus filhos. O sofrimento de Daniel ao ver a amiga recorrendo àquela – estigmatizada – profissão aparece como empecilho para Katie continuar a realizar o trabalho para sustentar os filhos dignamente. Na tentativa de Katie de afastar afetivamente Daniel da sua vida o espectador tem diante de si o exemplo da construção de um mecanismo de defesa psíquico que os trabalhadores colocam em ação de modo a conseguirem realizar sua atividade. Não é caso específico de Katie ou daquela profissão que ela exercia, o normal é que os trabalhadores, em qualquer trabalho, desenvolvam estratégias defensivas psíquicas para conseguir realizar a atividade, e assim levar “o pão pra casa” (ver a obra de Christophe Dejours). O sofrimento de Katie, ali, não é meramente o da prostituição, mas o sofrimento mais geral do trabalho.

Abrindo um parêntese, sugiro pensarmos a hipótese de que a aversão ativa antipetista e antiesquerda que aflorou nos últimos anos no Brasil, principalmente na classe média, esteja relacionada às estratégias defensivas psíquicas e ideologias defensivas do trabalho (que são uma consolidação dessas estratégias), e não ao suposto e tão propalado ressentimento pela ascendência de acesso ao consumo e aos serviços pelos grupos sociais de poder aquisitivo mais baixo. Essa aversão ativa teria como importante componente então a necessidade de afastar todo traço que questione minimamente aquilo que não pode ser questionado no trabalho? De afastar aquilo que aparece como uma ameaça ao equilíbrio que evita o sofrimento?

Daniel Blake clama ao final ser um “cidadão”. A identidade de “trabalhador” não aparece, seguindo a coerência do filme até seu fim. É o individualizado cidadão clamando por seus direitos e dignidade. A identidade de classe não está presente. Esse é o recado de Eu, Daniel Blake

Falta fazer esse calendário, falta fazer essa geografia.

Falta aprender a dizer “Nós”.

Falta o que falta…*

 

*Parafraseando o Subcomandante Marcos

Leo Vinicius é tecnologista da Fundacentro, Doutor em Sociologia Política


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