Uma novela shakespeareana, neorrealista e barroca - Le Monde Diplomatique

CRÍTICA

Uma novela shakespeareana, neorrealista e barroca

por Helcio Kovaleski
Março 15, 2016
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“Tudo corre como um rio”, sentenciou o filósofo grego Heráclito. “Velho Chico”, o mitológico rio São Francisco, evoca Riobaldo, de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Evoca o rio Liffey, de “Finnegan’s Wake”, de James Joyce. Riverrun. Riocorrente.Helcio Kovaleski

Um primeiro capítulo magnânimo. Eis o que o diretor Luiz Fernando Carvalho – seguramente, o melhor, hoje, em atividade na TV brasileira – apresentou ao telespectador na noite de segunda-feira (14) com a nova novela das nove da Rede Globo, “Velho Chico”, de autoria do mestre Benedito Ruy Barbosa, escrita por ele, sua filha, Edmara Barbosa, e o neto Bruno Barbosa Luperi. E com a colaboração preciosa do dramaturgo e escritor Luis Alberto de Abreu, nome frequente nas produções de Carvalho.

Começar uma novela com imagens magníficas das águas do rio São Francisco misturadas a cenas de lavadeiras fazendo o gesto do sinal da cruz, uma ribeirinha tentando tocar em filhotes de peixes, outra mergulhando no rio e de um ponto de chegada e saída de barcos, tudo ao som da melodia da oração cantada de São Francisco de Assis, seguidas de cenas de um espetáculo de teatro de bonecos, cantado por dois cantadores (um deles, o genial Xangai), que por sua vez conta uma história indígena, não é para qualquer diretor. Coube ao assumidamente barroco Carvalho esse condão, esse privilégio – que ele mesmo se concedeu, registre-se.

O rio São Francisco é “um dos mais importantes cursos d’água do Brasil e da América do Sul[i], que passa por cinco estados e 521 municípios. Sua nascente geográfica fica no município de Medeiros (MG) e sua nascente histórica, na serra da Canastra, no município de São Roque de Minas, centro-oeste de Minas Gerais. “Seu percurso atravessa o estado da Bahia, fazendo sua divisa ao norte com Pernambuco, […] constituindo a divisa natural dos estados de Sergipe e Alagoas e, por fim, deságua no oceano Atlântico, drenando uma área de aproximadamente 641 mil km²”. O comprimento do rio São Francisco, a partir da nascente histórica, mede 2.814 km, mas chega a 2.863 km, contados ao longo do trecho geográfico. “Seu nome indígena é ‘Opará’, ou ‘Pirapitinga’, e também é carinhosamente chamado ‘Velho Chico’”.

Conforme informações da própria Rede Globo[ii], “Velho Chico” é ambientada no Nordeste brasileiro. As cenas iniciais foram gravadas em locações como Baraúna, no Rio Grande do Norte, e distritos de Povoado Caboclo e Olho d’Água do Casado, em Alagoas. Na Bahia, um belíssimo casarão da Ilha de Cajaíba, em São Francisco do Conde, serve de cenário para a família do coronel Jacinto Sá Ribeiro morar. Ainda há imagens do município de Cachoeira e do Raso da Catarina. No total, 562 cenas foram gravadas nas locações nordestinas. Cerca de 60% a 70% do elenco é formado por atores da região. Isso é Glauber Rocha. Isso é Cinema Novo. Isso é Vittorio De Sica. Isso é neorrealismo italiano.

A cenografia, também “dirigida” por Carvalho, foi feita com peças reaproveitadas, a partir de objetos reciclados, como lâmpadas incandescentes utilizadas em refletores antigos reconstruídos. O figurino da primeira fase da novela (serão três) foi composto por roupas reais de moradores das locações, através da troca de roupas usadas em troca de novas aos moradores. No processo, houve descoloração de tecidos, tingimento e envelhecimento natural. Como se pôde observar no primeiro capítulo, os figurinos dos personagens sertanejos são feitos em tons pastéis; já os do núcleo de Salvador (BA) são inspirados na Tropicália[iii]. Tudo com uma pegada retrô, vintage. Já vimos algo muito parecido nas microsséries “Hoje é Dia de Maria”, de 2005, e “Capitu”, de 2008, verdadeiras obras-primas da TV brasileira. A mão pétrea e absolutamente autoral de Carvalho é perceptível em todas as suas obras.

 

Trilha: o velho e o novo

Como não poderia deixar de ser, a trilha sonora[iv] de “Velho Chico” é um brinco. De autoria, claro, de Luiz Fernando Carvalho, ela não faz concessão alguma. Isso é um alívio em se tratando de uma novela das nove. E um enorme avanço.

De quebra, traz uma seleção do que há de melhor do velho e do novo na música brasileira. Quem senão Carvalho iria resgatar (literalmente) os menestréis caipiras Xangai e Elomar e incluir Alceu Valença, Ednardo, Capinan e Tom Zé, juntamente com Chico César, Marcelo Jeneci e Tiê – sem falar do próprio Caetano, Maria Bethânia e Gal Costa?

A vinheta de abertura da novela traz a regravação de nada menos que “Tropicália” pelo próprio Caetano Veloso, autor e intérprete do clássico. Tem também “Gemedeira”, de Robertinho do Recife e Capinan, com Amelinha; “Me leva”, de e com Renata Rosa; “Flor de tangerina”, de e com Alceu Valença; “Enquanto engoma a calça”, de Ednardo e Climério, com Ednardo; “Veja Margarida”, de Vital Farias, com Marcelo Jeneci; “Como 2 e 2”, de Caetano Veloso, com Gal Costa; “L’Étranger” (“Forasteiro”), de Thiago Pethit e Héli Flanders (versão: Dominique Pinto e Rafael Barion), com Thiago Pethit e participação de Tiê; “I-Margem”, de Paulo Araújo e João Filho, com Paulo Araújo; a joia preciosa “Incelença pro amor retirante”, de Elomar, com o próprio e Xangai; “Serenata” (“Standchen”), de Franz Schubert, Ludwig Rellstab e versão de Arthur Nestrovski, com Chico César; um pot-pourri intitulado “Suíte Correnteza”, formado pelas canções “Barcarola do São Francisco” (de Geraldo Azevedo e Carlos Fernando), “Talismã” (Geraldo Azevedo e Alceu Valença ) e “Caravana” (Alceu Valença e Geraldo Azevedo), com Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai; “Triste Bahia”, uma versão de Caetano Veloso para um poema de Gregório de Mattos, cantada por Caetano; e “Senhor cidadão”, de e com Tom Zé. É ou não é um primor, um deleite, uma constatação de que, enfim, nossos ouvidos estarão contemplados no porto seguro da música, sensível, inteligente e encantadora?

 

Evocações

O primeiro capítulo de “Velho Chico” trouxe um Tarcisio Meira (Coronel Jacinto) como nunca se viu: perfeito. Apenas um olhar seu em direção à empregada evocou “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre. Trouxe uma Selma Egrei (Encarnação) não menos do que soberba, com sua aula de interpretação através do olhar. Um Rodrigo Lombardi muito bem dirigido – o que só acontece nas mãos de Carvalho. Um Chico Diaz igualmente soberbo, lembrando José Dumont em “Abril Despedaçado”, de Walter Salles. Dumont, aliás, também está no elenco, e isso é uma excelente notícia, pois é a chance de esse monstro do cinema brasileiro mostrar todo seu talento na TV, coisa que não tem acontecido, ultimamente.

Trouxe um Rodrigo Santoro absolutamente no tom – e como é bom vê-lo novamente na TV, depois de 12 anos. Uma Fabiula Nascimento senhora da interpretação e belíssima. Em passant, é mais do que um alento descobrir que o elenco ainda traz Marcélia Cartaxo, Batoré, Irandhir Santos, Domingos Montagner e Umberto Magnani.

O primeiro capítulo evocou cenas fordianas dignas do Monument Valley, no Grand Canyon, nos Estados Unidos, bem aquele ao fundo dos takes inicial e final de “Rastros de Ódio” – mais exatamente na cena em que as portas abertas da varanda do casarão mostram um recorte do rio São Francisco com dois veleiros, um indo e outro voltando. Evocou cenas de montagens intelectuais de Sergei Eisenstein – como as de Rodrigo Santoro (Afrânio) e Carol Castro (Iolanda) em Salvador (BA), mostrando momentos de psicodelia dignas, por sua vez, do tom alegórico de “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. Evocou “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, também de Glauber, com direito a um Antonio das Mortes personificado, agora, em Clemente (Julio Machado).

Ousado, o primeiro capítulo de “Velho Chico” não teve peias de mostrar uma cena em que a empregada vivida pela cantora e atriz baiana Denise Correia sopra e faz esvoaçar restos de cocaína do patrão, Afrânio. E muito menos de mostrar Carol Castro quase desnuda, em imagens de pura sensualidade.

 

Obsessão kubrickiana

Como se trata de uma direção de Luiz Fernando Carvalho é certeza de que haverá uma narrativa forte, com direito a digressões, entrecortes, fragmentos. Um estilo barroco, enfim, muito particular de Carvalho. No primeiro capítulo, isso ficou muito claro pela sua obsessão kubrickiana em compor fotogramas, com uma luz que é uma aula de cinema e de TV. Por falar em cinema, a morte do coronel Jacinto evocou as mortes de Dom Corleone (Marlon Brando), em “O Poderoso Chefão I”, e de Charles Foster Kane (Orson Welles), em “Cidadão Kane” – com ele citando, inclusive, o seu “Rosebud”. “Naufragar”, disse Jacinto, antes de morrer. De quebra, houve uma cena francamente literária, que evocou o vento cortante e constante de “Ana Terra”, de Erico Verissimo.

Definida pelo próprio Carvalho como uma “saga familiar shakespeariana”, “Velho Chico” conta uma história de amor emoldurada, é claro, por (muita) crítica social. Ecos de Raymond Chandler: narrativa concisa e coesa e cheia de ironia.

Bem a propósito, a trama começa no final dos anos 1960, em plena Ditadura Militar, quando Afrânio, filho do poderoso Coronel Jacinto, é obrigado a retornar de Salvador para a fictícia cidade de Grotas de São Francisco para assumir o lugar do pai, que comandava a política e a economia locais. Apaixonado por Iolanda, mas sob a presença marcante da amargurada mãe (Encarnação), que ainda sofre pela perda de seu filho mais velho, Jacinto, morto nas águas do São Francisco por culpa do pai, o velho coronel Jacinto, Afrânio parte numa viagem pela região para reafirmar alianças que seu pai mantinha. As primeiras informações dessa tragédia familiar já ficaram claras com cenas oníricas de um barquinho naufragado, ao som de uma criança cantando “A barquinha virou”. Pungente. Como cerejinha do bolo, o primeiro capítulo ainda teve o som rascante de um carro de boi. Preciosismo puro.

Sob a direção geral “artística” de Luiz Fernando Carvalho, é também certo que não haverá concessões em “Velho Chico”. Trata-se de uma novela que será menos obra “aberta” e mais “autoral”. É de se esperar que o trio Barbosa, Luis Alberto Abreu e Carvalho mostrem cenas e tramas bebidas da fonte de toda a nobre linhagem das tragédias clássicas de Shakespeare – como “Romeu e Julieta”, “Rei Lear”, “Othelo”, “Macbeth”, “Hamlet” e “Ricardo III”. E, com elas, os sentimentos humanos mais intensos e limítrofes.

 

No limite do Kitsch

Uma cena do primeiro capítulo de “Velho Chico” define o que é a direção inspirada de Luiz Fernando Carvalho. Após uma noitada, Iolanda fica revoltada com Afrânio por considerar que ele não a quer mais e desce uma escada com uma mureta de balaústres em direção à praia. Afrânio, então, sobe na mureta, abre os braços e grita: “Eu te amo!”. Pula a mureta, toma Iolanda nos braços – não sem antes de esta reclamar mais um pouco – e a beija. Acaba por carregá-la até o mar, onde ambos começam a tirar a roupa.

Tudo aquilo que poderia configurar-se em uma cena clichê é minuciosamente gravada no limite do Kitsch. Já se sabe o que vai acontecer na cena porque ela é previsível. Mas isso é proposital, pois tudo o que acontece é dentro de uma estética rigorosa. O detalhe que faz toda a diferença é a trilha sonora: o envolvimento dos dois personagens é “narrado”, por assim dizer, pela música “Meu primeiro amor”, de Gimenez, Fortuna e Pinheirinho, imortalizada na voz da célebre dupla Cascatinha e Inhana e interpretada, na trilha da novela, por Maria Bethânia. Resulta uma cena magnífica, digna de um primeiro capítulo fabuloso de uma novela que promete muito e tem o potencial de entregar ao espectador muito mais.

“Tudo corre como um rio”, sentenciou o filósofo grego Heráclito. “Velho Chico”, o mitológico rio São Francisco, evoca Riobaldo, de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Evoca o rio Liffey, de “Finnegan’s Wake”, de James Joyce. Riverrun. Riocorrente. “Rolarrioanna”, na tradução de Donaldo Schüler[v]. Evoca Giambattista Vicco, com a teoria do corso e ricorso, uma das inspirações de Joyce para escrever o fabuloso e intrincado romance. Para ele, o leitor ideal de “Finnegans Wake” seria alguém que estivesse predisposto a ouvir continuamente o som de um rio.

Teremos esse rio todas as noites, durante alguns meses, com “Velho Chico”. Bem-vindos à continuidade da vida, com tudo aquilo que ela traz de alegria, tristeza, comédia, tragédia, conflito, morte, cobiça, vingança, paz, guerra. Bem-vindos a Shakespeare, o “reinventor do Humano”[vi].

Helcio Kovaleski é jornalista, roteirista e crítico de teatro, autor do livro Festival crítico: dez anos escrevendo sobre o Fenata (Festival Nacional de Teatro). Atualmente é assessor parlamentar da Câmara Municipal de Ponta Grossa, Paraná.



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