Resenha: 2013, livro punk - Le Monde Diplomatique Brasil

RESENHA

2013, livro punk

por Wander Wilson
18 de abril de 2019
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Sobre a obra de Camila Jourdan, 2013: memórias e resistências

Ataque sonoro é nome de uma coletânea punk lançada em 1985. Na capa, dois mísseis, um estadunidense e um soviético miravam para a cidade de São Paulo, mostrando as forças antagônicas agindo em conjunto contra o que não seria governado por elas. Esta é a descrição da coleção Ataque, organizada por Acácio Augusto e Renato Rezende em conjunto com a editora Circuito. É nesta coleção que se insere o livro de Camila Jourdan: 2013: memórias e resistências. Escrito curto e rápido que trabalha sobre a própria vida da escritora, assim como as canções de punk rock.

Camila esteve nos acontecimentos de 2013, portanto, não escreve sobre um fato externo, pressupondo uma neutralidade da razão. O livro é dividido entre suas memórias, entrevistas e análises, o que coloca vida e pensamento em fluxos relacionáveis, escapando da arrogância filosófica e científica capaz de produzir verdades unitárias – uma forma-Estado do pensamento. É contra esse tipo de verdade vinda dos céus que o livro se volta, afirmando sua ética anarquista nos combates que trava. Escapa das soluções fáceis à esquerda e à direita, os dois mísseis que apontavam para a cidade de São Paulo na capa da Ataque sonoro. O ano de 2013 não foi o começo do golpe que resultaria na ocupação do governo do Estado pela direita. Também não se trata de separar grupos terroristas infiltrados, financiados pela esquerda, comumente chamados de vândalos. Essas narrativas consolidam aquilo que se quer enterrar, a revolta de 2013, equacionando a continuidade do Estado e renovando seus governos.

Embora o livro trate dos acontecimentos na cidade do Rio de Janeiro, um episódio da cidade de São Paulo estabelece conexões com esses fluxos de análise. Chamada para negociar com políticos sobre as pautas de reivindicações dos atos que aconteciam neste mês, uma militante do Movimento Passe Livre (MPL) enuncia: “Primeiro eu queria dizer que eu não gosto de políticos. Eu gosto de Ramones”. Não havia o que se negociar, não era disso que se tratava as contestações que apareciam por todo o país.

O fervor nas ruas em 2013 começou antes e ainda não acabou, faz parte das disputas em curso. 2013 foi a ocupação por indígenas do antigo museu do índio na cidade do Rio de Janeiro, convertendo-o na aldeia maracanã, o que impediu a demolição do prédio nos preparativos da Copa do Mundo de 2014. Foi também a remoção de seus ocupantes pelas forças policias em março de 2013. Foi todas as escolas ocupadas pelo Brasil em anos posteriores, todos os beagles libertados de uma empresa de cosméticos, a luta contra a máfia dos transportes… Foi muito. Está sendo.

Em junho de 2013 pululou todo tipo de contestação na extensão dessa artificialidade territorial que chamamos de Estado-nação. Viu-se a retomada de uma série de práticas e pensamentos anarquistas como a ação direta, a dissolução de hierarquias e a recusa da organização em partidos. Viu-se a emergência mais consolidada no Brasil da tática black block e a tentativa exaustiva de jornais, mídias televisivas e alguns intelectuais de esquerda de enquadrá-los como vândalos.

2013 foi também os atos anti-Copa em 2014 e as ações repressivas por parte das forças de Estado, até então sob o governo nacional do Partido dos Trabalhadores (PT). O livro começa com a polícia invadindo a casa de Camila, na época, militante da organização anarquista Terra e Liberdade (OTL) e da Frente Independente Popular (FIP), e levando-a para a cela da Polinter sem tomar conhecimento da acusação que a havia colocado lá. Depois foi transferida para a prisão de segurança máxima de Bangu junto com outras militantes mulheres. Lugar que não devia existir, assim como todo cárcere, espaço com presas majoritariamente negras obrigadas a se submeterem às carcereiras majoritariamente brancas. O livro acompanha parte do processo dos 23 de junho, das 23 pessoas arrancadas de suas casas durante os atos contra a Copa na cidade do Rio de janeiro. Camila, filósofa e professora da Uerj, chega a ser impedida de dar uma palestra na Universidade Federal da Grande Dourados, no Mato Grosso do Sul. A justiça considerou que essas atividades não eram “essenciais ao exercício de sua profissão”. Tudo isso tem algo de 2013, este acontecimento que ao mesmo tempo está fora e dentro do calendário.

Livro de escrita corajosa em meio a este processo cujas provas são os depoimentos de um policial infiltrado na Frente Independente Popular (FIP). As provas vindas deste único relato foram cassadas recentemente pelo Supremo Tribunal Federal (STF), muito embora o processo ainda corra sem estas provas validadas. Patti Smith, em entrevista ao La Nación, disse que, antes da palavra punk existir como a conhecemos chamavam-na de liberdade. Após os primeiros shows na casa CBGB e a emergência desse estilo sonoro nos Estados Unidos, as duas palavras passaram a se mesclar em uma relação explosiva. Para a poeta do rock, o punk se transformou e pode ser muitas coisas, ele é uma vontade de afirmar outras formas de vida. Nesse sentido, Camila não escreve sobre junho de 2013 e sim com o acontecimento. É disto que também tratava junho: a afirmação de outros mundos e outras vidas, de práticas de liberdade. É também por esses caminhos que reverberam a vida pulsante deste livro em meio aos seus breves e corajosos acordes.

 

*Wander Wilson é doutorando em Ciências Sociais (antropologia) pela PUC-SP.

 

O livro será lançado em São Paulo no dia 27 de abril. Para mais informações, clique na imagem abaixo.



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